Centro de Desmontagem inaugurado em Osasco é o primeiro de uma montadora na América do Sul e o segundo da companhia no mundo
Osasco, SP – O primeiro centro de desmontagem veicular operado por uma montadora foi inaugurado na Grande São Paulo. A Stellantis, por meio de sua divisão Circular Autopeças, assumiu o pioneirismo dentre as fabricantes de veículos na América do Sul ao investir R$ 13 milhões na estrutura em Osasco, com capacidade para desmanchar 8 mil veículos por ano.
Passarão por lá veículos das suas marcas e de concorrentes, desde carros usados em testes em seus centros de desenvolvimento a modelos adquiridos em leilões de seguradoras. Eles serão desmontados e suas peças direcionadas para remanufatura, venda em segunda vida ou a reciclagem completa.
“Por ano em torno de 2 milhões de veículos chegam ao fim de sua vida”, disse Paulo Solti, vice-presidente de peças e serviços da Stellantis América do Sul. “Destes apenas 1,5% recebem a destinação adequada. No Japão este índice chega a 95%, na Europa mais de 90%. É um mercado com enorme potencial”.
A Stellantis estima em R$ 2 bilhões o mercado de economia circular automotiva. Ainda carece de melhor regulamentação: a compra de peças usadas, por exemplo, só pode ser feita por pessoas físicas – e as obtidas por meio das desmontagens em Osasco estarão disponíveis nos canais de venda online da companhia e também em uma loja física instalada por lá.
Outro ponto que poderia ajudar a impulsionar o mercado é a inspeção veicular: na Europa, segundo José Irineu Medeiros, vice-presidente de assuntos regulatórios da companhia, carros são direcionados à reciclagem porque deixam de atender requisitos de segurança e emissões. Foi lá, em Mirafiori, Itália, que a Stellantis abriu seu primeiro centro de desmontagem, em 2023.
Incentivos do Mover
Além de obter receita com a venda das peças usadas a Stellantis mira os benefícios previstos, e ainda não minuciados, pelo Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação. A reciclagem de veículos ajuda a reduzir as emissões de CO2 e poderá garantir pontos de desconto no IPI Verde.
Medeiros disse que um veículo a gasolina gera em torno de 60 toneladas CO2 em sua vida útil e um a etanol cerca de 23 toneladas. A reciclagem reduz essa emissão em 1 a 2 toneladas. A reciclagem ainda garante economia de 80% de matérias-primas na montagem de peças e componentes e 50% menos de emissão de CO2.
Como funciona?
Ao chegar à desmontadora os carros são direcionados para a área de análise. É ali que serão mapeadas as peças que podem e não podem ser aproveitadas, por meio de um escaneamento. Também são classificadas em notas de zero a dez, que influenciam no preço cobrado por elas.
“Uma peça nota quatro, por exemplo, é descartada para a reciclagem do material”, disse Alexandre Aquino, vice-presidente de economia circular da Stellantis. “Acima de nota cinco pode ser vendida e os preços chegam a 50% do custo total de uma peça nova”.
Itens de segurança são descartados – alguns direcionados a fornecedores, outros entram na reciclagem de material. Em Osasco foi instalada uma máquina capaz de separar o plástico do cobre dos chicotes – as matérias-primas também são enviadas a parceiros que as utilizam em novos materiais.
Depois os veículos vão para a área de descontaminação: lá são retirados fluidos como combustível e lubrificantes, que também têm como destino fornecedores que reciclam ou dão o descarte correto.
Dali eles sobem à linha de desmontagem onde as peças são separadas, catalogadas e etiquetadas. “Toda peça tem um QR Code que traz a sua história. O comprador poderá verificar sua origem, qual o modelo, versão”.
Ao lado dos elevadores de desmontagem dos carros foi instalado o estoque, para onde são direcionadas as peças. As portas não são desmontadas: são vendidas completas – salvo em casos de avarias, quando são direcionadas para a reciclagem.
Lanternas, rodas, centrais multimídias, dentre outros produtos, estão disponíveis para compradores interessados nos canais de vendas da Stellantis, como o Mercado Livre e WhatsApp. Outros componentes, como motores e transmissões, são remanufaturados e vendidos também pela Circular Autopeças, que mantém um braço no segmento.
Apesar de ser o primeiro operado por uma montadora o centro de desmontagem não é pioneiro no Brasil: existem outros, como o da Renova Ecopeças, da Porto, fisicamente próximo do da Stellantis. A expectativa é a de que os incentivos do Mover inspirem outras empresas a investir, ou formar parcerias, para criar os seus e fazer a economia circular.