Em parceria com IPT e USP, empresa desenvolve tecnologia nacional para recuperar lítio e níquel com 99,9% de pureza
São Paulo – Gigante global em fundição e Tupy está redesenhando seu papel na indústria automotiva. Seu novo alvo é a reciclagem de baterias: sob o comando de André Ferrarese, seu diretor de pesquisa e desenvolvimento, a companhia deixa de ser apenas uma fornecedora de componentes físicos para tornar-se peça-chave na gestão de minerais críticos.
O movimento faz parte de uma estratégia de diversificação iniciada com a aquisição da MWM em 2022 e que agora avança para a economia circular, a fim de capturar o valor contido no descarte de veículos elétricos.
Atualmente a maior parte da reciclagem no Brasil limita-se à etapa mecânica, exportando a chamada black mass por cerca de US$ 500 a tonelada. A Tupy, por meio da hidrometalurgia e purificação desenvolvidas em parceria com o IPT e a USP, mira o beneficiamento final desses minerais – lítio, níquel, cobalto, manganês e grafite – cujos valores podem saltar para US$ 3 mil 500 a tonelada.
Luciana Gobo com o cobalto, rosa, e o níquel, verde. Fotos: Lucia Camargo Nunes.
Além do salto financeiro a operação oferece um diferencial ambiental importante: minerais reciclados possuem uma pegada de carbono 70% menor do que os extraídos de mineração virgem. Embora hoje sejam comercializados por preços similares, a tendência é que a precificação de carbono crie um prêmio para o material reciclado, antecipando regulamentações como o Passaporte da Bateria europeu.
No Brasil o projeto é impulsionado por subvenções da Finep e gera créditos para o programa Mover.
Nova avenida de crescimento
Para Ferrarese o investimento é uma resposta à nova estrutura de custos da mobilidade. “A bateria é o elo principal da eletrificação. Ela agrega peso e valor significativos ao veículo. A Tupy está incubando uma nova área de negócio que já avançou na montagem de motores e agora se volta para o ciclo dos minerais críticos”.
Manganês, preto, e niquel, branco. Fotos: Lucia Camargo Nunes,
A meta é que, até o final de 2028, a companhia tenha plantas industriais operacionais. A operação técnica é liderada por Luciana Gobo, especialista de projetos e doutora em química da Tupy. O foco é superar a dependência externa, especialmente da China, transformando o laboratório em uma unidade fabril de alta escala. “Nosso objetivo é que os minerais voltem para a bateria com pureza grau bateria de 99,9%”.
O projeto está em fase de escalonamento. A planta piloto atual processa 400 toneladas de baterias/ano, cerca de mil carros, mas a futura unidade comercial deverá atingir 10 mil toneladas/ano. “Estamos testando os limites do processo e a rastreabilidade dos dados para entregar, em 2028, uma proposta de planta pronta para ser implementada”.