Por considerarem Estados Unidos mercado relevante empresas dizem que solução é reduzir projeção de faturamento e lucros nas operações
São Paulo – De janeiro a julho as exportações de autopeças para os Estados Unidos somaram US$ 730,4 milhões, recuo de 5,8% diante do mesmo período do ano passado, quando totalizaram US$ 775,5 milhões. Ainda assim o destino ocupa a segunda posição do ranking, com fatia de 15,4%, atrás somente da Argentina, com 38,2%.
Neste período, porém, o tarifaço do presidente estadunidense Donald Trump ainda não estava efetivo. Tudo indica que o tombo será ainda maior no acumulado dos oito meses do ano, de acordo com dados divulgados pelo Sindipeças, reflexo da medida que vigora há pouco mais de um mês.
Exemplo de uma das tantas empresas impactadas pela sobretaxação de 50%, é a Forbal Automotive, de Flores da Cunha, RS, que em março deste ano abriu centro de distribuição em Tampa, na Flórida, após investir R$ 4 milhões em planejamento de expansão das vendas ao país iniciado dois anos atrás.
Estimulada pela demanda de fabricantes de máquinas agrícolas como John Deere, CNH Industrial e AGCO, suas clientes de peças e componentes para máquinas agrícolas no Brasil, a Forbal tinha projeção de ampliar em 20% seu faturamento – muito por causa da novidade com o entreposto, cuja proposta é dar celeridade às operações e obter o mesmo nível de eficiência logístico.
“De fato poucas empresas ou clientes terão condições de dividir esta conta ou absorver as taxas extras”, assinalou o CEO Giuliano Santos. “Isto estabelece cenário em que, em alguns casos, os negócios podem ser tornados inviáveis. É tudo muito desafiador.”
Para tentar manter a representatividade junto aos clientes estadunidenses, Santos contou que o plano inclui oferecer garantia de fornecimento, levar credibilidade à mesa de negociação, garantir condições comerciais e buscar alternativas em classificação fiscal de produtos, até para justificar o investimento feito no país:
“As potenciais compradoras, no entanto, colocam muitas dúvidas e reticências durante a negociação. Ainda não perdemos clientes porque todos são de longo prazo. Talvez não tenhamos sido nomeados para alguns novos negócios. Temos o sentimento de que negociações que estavam em andamento desaceleraram. Todo mundo está neste compasso de espera, o que é prejudicial para a economia como um todo”.
O plano, no início do ano, era que 20% do faturamento da empresa fosse obtido com exportações mas, diante da situação, hoje está em 15% e assim deverá continuar. Para Santos, se as coisas estivessem em um ritmo normal, o índice não somente seria alcançado como também revisado para cima. Em paralelo a empresa trabalha para diversificar os destinos, como, por exemplo, países africanos.
Fabricantes de componentes automotivos estão entre os mais afetados. Foto: Adonis Guerra
Embarques do ABC Paulista recuam em agosto
Segundo informações da subseção do Dieese no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC somente no mês passado as exportações da base da entidade para os Estados Unidos caíram 63,7% frente a agosto de 2024, com destaque para São Bernardo do Campo, em que a retração alcançou 69,5%.
A nota técnica mostra que, apenas de janeiro a agosto, estas exportações encolheram US$ 60 milhões, o que inclui produtos de alto valor agregado, como máquinas-ferramenta, componentes automotivos e itens metalúrgicos – os mais afetados. No ano passado a região exportou cerca de US$ 750 milhões para os Estados Unidos, sendo 78% ligado à indústria metalúrgica.
Uma das empresas que estão sentindo o baque do tarifaço no ABC Paulista é a Polimold: 25% do que exporta aos Estados Unidos é dedicado ao setor automotivo, o que é representado por sistemas de injeção com câmara quente fabricados em São Bernardo.
“A Polimold existe há 52 anos e posso afirmar que nunca vi uma crise como esta”, afirmou o fundador e presidente Alexandre Fix. “Desde o ano passado a situação já vinha ruim, e agora, com o tarifaço, piorou.”
Com o tarifaço Fix afirmou que seu lucro obtido com essas operações despencou. “Mas, como não quero perder os Estados Unidos como cliente, apesar do Trump, que uma hora não estará mais no poder, prefiro abrir mão do lucro agora”.
As exportações de moldes de componentes que seguem para ferramentarias são realizados por meio de um distribuidor estadunidense. E, até o momento, a opção tem sido negociar a divisão da sobretaxa pelas partes.
Linha de produção de placas de moldes e sistemas de câmara quente da Polimold. Foto: Divulgação.
A vantagem da empresa é que, embora 20% do que produza em termos de câmara quente abasteça o setor automotivo, como os negócios são pulverizados e atendem a diversos segmentos, como o calçadista e outros de injeção de plástico, é possível equalizar a equação em tempos turbulentos.
Embora a exportação para os Estados Unidos corresponda a menos de 10% do total e, deste volume, 20% refiram-se à indústria automobilística, conforme destrinchou o coordenador de vendas técnicas da Polimold, André Barrant, a companhia já iniciou busca por outros sistemistas em mercados na América Latina, Europa e Ásia.