Uma certeza, muitas opiniões

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21/01/2019

São Paulo - Ainda é muito cedo para apontar as verdadeiras razões que levaram o presidente da General Motors Mercosul, Carlos Zarlenga, a enviar e-mail para todos seus funcionários dizendo, dentre outras coisas, que o prejuízo acumulado de 2016 a 2018 não poderá se repetir. Na tentativa de jogar um pouco mais de luz sobre este, que é, sem dúvida, o mais importante acontecimento do mundo automotivo neste início de 2019, AutoData ouviu diversas pessoas envolvidas direta e indiretamente com a companhia no Mercosul e nos Estados Unidos.

 

E também reunimos trechos de entrevistas realizadas com Carlos Zarlenga em 2018 que mostram que o cenário era bem diferente daquele apresentado aos funcionários na sexta-feira, 18, e objeto de estupefação e incredulidade.

 

Todas as fontes, sem exceção, avaliaram como no mínimo infeliz a atitude do presidente. Gente com experiência executiva na cadeia automotiva classificou esse comunicado como a criação de um fato negativo na tentativa de obter vantagens em negociações junto aos grupos citados no e-mail: governo, concessionários, empregados, sindicatos e fornecedores.

 

Há certamente uma contradição que nem mesmo os funcionários da ativa conseguiram digerir: os quase 20 mil colaboradores da GM no País tinham, até a última sexta-feira, a mesma informação que AutoData a respeito da realidade da companhia, obtida em três importantes entrevistas com Carlos Zarlenga em 2018.

 

Na edição 342, de março do ano passado, na entrevista From the Top, Zarlenga fez análises sobre o ambiente da indústria automotiva no País, com as empresas se reestruturando e o mercado apontando para uma recuperação dos volumes em função dos fundamentos econômicos mais positivos. Ele citou a confiança do consumidor, a tímida recuperação do emprego e a criação da GM Mercosul – uma profunda reestruturação executiva da companhia – como fatores positivos desse movimento. Veja esta entrevista na íntegra

 

Nas páginas 17 e 18 Zarlenga afirma que houve perdas no balanço de 2016 e que em 2017 as contas voltaram ao equilíbrio, situação repetida em 2018:

 

“A América do Sul é um ponto chave, estratégico e foco da GM. Não sou eu quem diz isso, é a Mary [Mary Barra, CEO global]. Acho que muito disto está ligado ao trabalho que fizemos durante a crise. Se estivéssemos hoje fora do ponto de equilíbrio, sem melhorar a rentabilidade, não sei se a resposta seria a mesma... Mas da forma como estamos, com perspectiva de crescimento somada aos investimentos, entendo que dificilmente você vai achar um momento da GM no passado melhor que o atual”.

 

Esta entrevista foi um dos cases selecionados pelos jornalistas de AutoData para a indicação de Zarlenga ao título Personalidade do Ano 2018: ele foi o escolhido por meio de votação aberta no nosso site.

 

Em junho Zarlenga levantou a possibilidade de balanços negativos por parte de todas as empresas em entrevista exclusiva a AutoData. Foi o único momento em que a apreciação do dólar poderia reverter a trajetória do resultado positivo que se aventava.

 

Já em dezembro, na edição de AutoData que entrevistou o Personalidade do Ano, a número 351, Zarlenga mais uma vez reforçou a intenção da matriz de investir no País: “Somos a número 1 na sexta economia do mundo, o Brasil, e número 1 no Mercosul, um dos maiores mercados automotivos do mundo. Aqui claramente é um lugar onde podemos ganhar e por isso vamos investir aqui”. Leia a entrevista na íntegra.

 

Diante dessas declarações pode até ser possível que a GM tenha tido, de 2016 a 2018, prejuízos que não poderão se repetir neste 2019 segundo o e-mail de Carlos Zarlenga aos seus funcionários. Essa hipótese é válida somente se os prejuízos em 2016 tenham sido superiores aos resultados obtidos em 2017 e em 2018, segundo o próprio Zarlenga disse a AutoData. A GM não divulga balanços individuais das operações no Brasil e na Argentina. Apenas balanços regionais.

 

Executivo da área de finanças, que já passou pelas grandes do setor automotivo no País, avalia que “aparentemente estão tentando colocar o bode russo na sala para depois tirar. Outros líderes da indústria já fizeram isto no passado”. Esta tática seria uma tentativa de forçar negociações que atenderiam aos interesses da montadora – e em troca a líder de vendas permaneceria no País...

 

Outra vertente especulada por ex-executivos da própria companhia é a de que há um profundo movimento de reestruturação do modelo de negócios da GM no mundo. Nessa hipótese ganha força uma suposta cessão das operações na América do Sul para a chinesa SAIC.

 

Escritórios e fábricas na Colômbia e no Equador, que não fazem parte da GM Mercosul, também receberam e-mail semelhante ao de Zarlenga. Nesses países, e em Detroit, MI, “a história, a ideia de a SAIC assumir está forte”, disse profissional que já não está na ativa mas que mantém contato permanente com seus ex-colegas. Esta é uma opção que está neste momento na mesa de Mary Barra.

 

Todo esse movimento assusta a indústria automotiva nacional: “Se a líder de vendas está nessa situação imaginem as outras”, raciocinam os envolvidos. Que podem considerar que pode ter sido criada, esta situação, por uma sucessão de decisões que não contribuíram para o desenvolvimento dos planos da companhia.

 

O caso pede um olhar em perspectiva para tentar compreender o momento. São muitos os problemas, que podem começar pela fábrica de São José dos Campos, SP. Nos bastidores conta-se que algumas escapatórias, como negociações com a PSA para repassar a operação no Vale do Paraíba, e até um estudo para produzir um SUV com a Toyota, não vingaram no passado, relata fonte que participou destes momentos.

 

Os investimentos atuais também recebem críticas. Em São Caetano do Sul, SP, os clássicos problemas de logística podem tomar muito dinheiro dos investimentos para ser resolvidos, dentre outros desafios na fábrica mais antiga da GM no País. Pior: esses novos carros a ser produzidos a partir deste ano podem não gerar o retorno esperado. E o board pode não ter gostado disso: “É necessário avaliar se o que está acontecendo agora não foi um puxão de orelha de Mary Barra em Zarlenga ou se, realmente, está ocorrendo uma transformação global na GM”.

 

Ou tudo isso pode ser fogo de palha. Essa mesma fonte lembra que a declaração de Barra sobre a América do Sul ocorreu durante reunião da alta direção da GM, em Detroit, com jornalistas que cobrem o mercado financeiro: “Ela estava falando para acionistas, tentando vender ações. Nesse momento falar e agir são duas coisas bem diferentes”.

 

De qualquer maneira o e-mail do presidente Zarlenga continua dando o que falar. Um ex-funcionário de alto escalão concluiu: “Nunca tinha ouvido uma declaração tão infeliz, jogando no chão o valor, a credibilidade e a confiança da marca”.

 

Representante da assessoria de imprensa e de relações públicas da General Motors do Brasil, procurado, afirmou que a companhia não se manifestaria a respeito.

 

Colaborou Vicente Alessi, filho

 

Foto: Christian Castanho