Autopeças deverão ser prejudicadas por acordo do diesel

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São Paulo – A resolução definida pelo governo para reduzir o preço do óleo diesel e tentar restabelecer o serviço de transportes no País, paralisado por greve desde segunda-feira, 21, deve gerar uma conta alta que será paga por alguns setores, como a indústria de autopeças. Retirar o setor da lista dos contemplados pelo incentivo da desoneração da folha de pagamento é visto pelos executivos como sinônimo de aumento de custo, redução de operações e até demissões.

 

O projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados na quarta-feira, 23, seguiu para o mesmo procedimento no Senado Federal, onde a votação está prevista para ocorrer na terça-feira, 29. Nesse interim, o setor se articula para defender a manutenção da indústria de autopeças dentro do benefício.

 

A desoneração da folha estipula troca da contribuição das empresas para a Previdência, de 20% sobre a folha de pagamento, por alíquotas menores incidentes no faturamento. As empresas que saírem da tributação sobre a receita bruta voltarão a pagar à Previdência contribuição de 20% sobre a folha.

 

De acordo com Gilberto Heinzelmann, presidente da Zen, perder o benefício configura, na prática, a interrupção do processo de retomada de um setor que registrou perdas nos últimos anos em função da crise nas vendas do setor automotivo:

 

“Retirar as autopeças da desoneração é uma medida que forçará as empresas a fazer ajustes que representam tudo o que o País não precisa neste momento. Haverá redução de pessoal e afetará principalmente empresas que produzem para exportação. Voltaremos a exportar impostos, como explicar isso no mercado externo?”.

 

Segundo Osias Galantine, diretor comercial da Aethra, a medida implicará em aumento de custos para a fornecedora, o que está cada vez mais difícil de ser repassado. “Não é bom para ninguém”.

 

Uma fonte do setor revelou à reportagem que o Sindipeças iniciou uma pesquisa com os seus associados para tentar medir os reflexos da medida na operação de cada um. A ideia é reunir informações suficientes para se criar um indicador e usar o material como argumento em eventuais negociações em Brasilia, DF, até a terça-feira, quando o Senado deverá votar a matéria.

 

Procurado pela reportagem de AutoData, o Sindipeças não se manifestou sobre o assunto.

 

Produção parada - A greve que paralisou o escoamento de produtos no País entrou no quinto dia com a adesão de novos nomes à lista de empresas com abastecimento de componentes prejudicado. A Hyundai informou por meio de comunicado que interrompeu a produção na fábrica de Piracicaba, SP, na tarde da sexta-feira, 25. A Marcopolo suspendeu os trabalhos até 1o de junho em função do desabastecimento das linhas.

 

Segundo a Anfavea, todas as suas associadas interromperam a produção de veículos por conta do desabastecimento de peças. O impacto deverá ser sentido nos números de maio: uma fonte contou à reportagem que a retomada da operação total das fábricas deverá levar ao menos dois dias, tempo para que toda a cadeia se recomponha.

 

O quadro de paralisação seguiu praticamente inalterado após reuniões realizadas em Brasília na tentativa de resolver os entraves do transporte. Os cegonheiros, por meio do seu sindicato, informaram que os caminhões seguem nos pátios “até que se evolua de forma concreta as negociações”.

 

Na outra via, a Petrobras, responsável pela produção dos combustíveis, avaliou como positiva as medidas propostas pelo governo. Disse, por meio de comunicado, que “considera o acordo realizado entre o governo e os representantes dos caminhoneiros altamente positivo e um ganho inquestionável para o país”.

 

No começo da tarde de sexta-feira o presidente da República convocou as Forças Armadas para atuarem contra os manifestantes com o argumento de que "é preciso garantir o abastecimento da população". Até o fechamento desta reportagem, ainda havia pontos de mobilização espalhados pelo País.

 

Colaborou André Barros

 

Foto: Divulgação