Posições à deriva

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Foto Jornalista  Leandro Alves

Por Leandro Alves

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06/04/2020

São Paulo -- A indústria automotiva, que contribui com mais de 20% do PIB industrial do Brasil, que possui alguns dos mais bem preparados profissionais em quase todas as suas áreas, que contrata as melhores empresas de consultoria e de marketing do mundo, não tem um Norte para esta que é a mais desafiadora das crises do século 21.

 

Nunca devemos esquecer a relevância dessa indústria e as expectativas de toda uma cadeia de fornecedores, concessionários, clientes, funcionários e de outras atividades econômicas que sobrevivem no entorno do que chamamos automotivo. É em momentos como este que as entidades e as lideranças precisam ter em suas mãos o termômetro da situação para sinalizar a temperatura ao mercado. E, com isso, que todos possam tomar decisões capazes de minimizar os impactos dessa enorme crise.

 

Mesmo com invejável arsenal intelectual disponível para analisar e criar modelos que sirvam, ao menos, como parâmetros para todas as empresas, associadas ou não, o presidente da Anfavea, Luiz Carlos Moraes, disse com toda a calma e tranquilidade, em vídeo, na segunda-feira, 6 que as projeções para a indústria em 2020 permanecem as mesmas de janeiro.

 

Há de se considerar a hipótese de que ainda é muito cedo para a Anfavea cravar, neste primeiro mês de crise por causa da pandemia de covid-19, qual o impacto da quarentena na produção, vendas e exportação de veículos. A prudência de Moraes, neste caso, deveria ser interpretada como um sinal positivo, de que as coisas podem mudar de rumo no seguinte instante, ou seja, neste abril ou em maio, em junho, julho, agosto. Por enquanto o presidente da Anfavea disse vagamente que o segundo trimestre sofrerá o impacto do novo coronavírus.

 

Também é verdade que muitas das fontes às quais as montadoras recorrem para buscar melhor entendimento dos impactos na economia e na atividade automotiva ainda não calibraram suas apostas para o futuro que se nos avizinha, este de médio e curto prazos. Isso torna a tarefa dos líderes mais difícil. Mas não impossível.

 

A propósito alguns sinais já estão piscando no painel. E a própria Anfavea acendeu alguns deles. Consultando projeções de dezenas de entidades, de governos, bancos e consultorias a entidade chegou a uma possível queda do PIB de 2,3% em 2020. Não seria suficiente para, ao menos, oferecer uma projeção, em porcentual, de retração do mercado automotivo? Sem cravar números mas apenas acompanhar essas tendências como baliza para as necessárias programações de fornecedores, montadoras e concessionários para os próximos meses.

 

A própria declaração de Moraes deixa no ar o que está por vir. Sobre a média de retração do PIB do Brasil ele disse: “É tudo muito dinâmico. Isso pode mudar e explica a nossa decisão de não revisar as projeções neste momento”.

 

Esperávamos mais pois quem precisa interpretar essa posição do presidente da Anfavea para tomar decisões não sabe se ele diz isso porque o PIB pode se recuperar, e assim vendas, produção e exportação acompanham essa onda e crescem em 2020, ou se daqui a pouco a tragédia será pintada em tons ainda mais fortes.

 

Em paralelo alguns presidentes de montadoras, como Antonio Filosa, da FCA, já trabalham com números assustadores para o desempenho da indústria automotiva em 2020. Os jornalistas de AutoData, em conversas privadas ou entrevistas oficiais, também encontram nas vozes dessas fontes projeções de dura retração da atividade. Todos, sem exceção, estavam esperando posição mais firme da entidade.

 

A expectativa era a de que a Anfavea também anunciasse hoje o resultado das negociações que estão em curso com representantes do governo, mais especificamente no Ministério da Economia, como nos foi confirmado por várias fontes na semana passada.

 

Consultada após o vídeo em que Moraes fez o balanço da indústria em março, a Anfavea disse que quando tiver clareza do fim da quarentena, e com a retomada da produção, fará uma avaliação mais apurada a respeito da projeção oficial.

 

Foto: Divulgação.