Setor automotivo ensaia retomada em novo cenário

Imagem ilustrativa da notícia: Setor automotivo ensaia retomada em novo cenário
Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

CompartilheCovid-19
06/05/2020

São Paulo – Aos poucos as linhas de montagem vão sendo religadas no País em um novo contexto criado pelo período de pandemia. Mais do que que uma retomada obedecendo aos protocolos de saúde, a indústria deve viver uma nova realidade em termos de produção e vendas, segundo especialistas ouvidos pela Agência AutoData.

 

A tendência, propõem, é a de que as empresas busquem por agressivo processo de redução de custos, uma vez que as rede de concessionários fechadas, assim como as fronteiras internacionais, constituem entrave à atividade comercial. Com encargos e tarifas a pagar, ainda que em período de inatividade, não sobrou alternativa senão cortar gastos e proteger o caixa.

 

“O primeiro período de isolamento social serviu para que as áreas de planejameto estratégico organizassem os dados para, a partir deles, se construir um plano de ação para os próximos meses”, disse Antonio Jorge Martins, professor da FGV-SP. “Não há dúvidas de que o planejamento será baseado na busca por novas formas de receita e redução de custos, até porque era algo que já estava no radar das empresas.”

 

Nesse sentido o que poderá ocorrer num primeiro momento é a redução dos quadros das fábricas – os baixos volumes que devem marcar o mercado no segundo semestre não justificariam a atividade com o volume de funcionários que a indústria automotiva mantinha antes do coronavírus. De acordo com dados da Anfavea de fevereiro, período anterior ao anúncio dos primeiros casos da covid-19 no País, o indústria empregava 126 mil funcionários.

 

“As montadoras buscam a redução de custos e o primeiro ponto é enxugar a produção. As demandas não justificarão muitos turnos porque o mercado consumidor vai demorar a reagir", observou Paulo Cardamone, consultor da Bright. "E, se isso acontecer, muito foi investido em tecnologias de manufatura digital no sentido de se fazer mais com menos.” 

 

Vendas – Se a projeção é a de que o consumo na ponta estará retraído no pós-pandemia – considerando a passagem do pico da contaminação até julho, como espera o Ministério da Saúde, e eventual onda de desemprego e diminuição da massa salarial –, no mercado corporativo os analistas dizem que é possível cogitar alguns desafios frutos da estagnação comercial.

 

Um deles, segundo Cardamone, é a diminuição da atividade no ramo da locação de veículos. Com menor número de passageiros em função do isolamento social o consultor indica para a diminuição dos deslocamentos realizados pelos serviços de aplicativos – estes os grandes clientes das locadoras, que, por sua vez, são os grandes clientes nas montadoras por meio da venda direta, que vinha garantindo volume ao negócio automotivo.

 

“Com a menor circulação pode ser que as locadoras estejam recebendo veículos que foram alugados por motoristas. Como as montadoras se comportarão diante de um cenário de possível queda nas demadas das locadoras? É importante considerar, ainda, a baixa circulação nos aeroportos onde há lojas das locadoras.”

 

O último balanço da Fenabrave mostrou que 50,5% das poucas vendas realizadas em abril ocorreram pelo canal direto, o que indica, ainda, forte presença da modalidade no mix do mercado automotivo, apesar da queda registrada no volume vendido. Por outro lado espera-se o fortalecimento de novos canais de vendas como resposta ao cenário de concessionárias com portas fechadas. Para Fernando Trujillo, consultor da IHS Markit,  as montadoras intensificarão os esforços nas vendas via internet, sejam elas de veículos ou de componentes.

 

Mudanças também devem ocorrer no perfil do vendedor de veículos, disse o professor Martins, da FGV: "Uma vez o mercado voltando à normalidade é possível que a venda de veículos seja mais técnica, ou seja, baseada em processos experimentados durante o período de quarentena, quando o esforço de venda foi maior pois as portas estavam fechadas. Recorrer à tecnologia, aos leads gerados em canais digitais, por exemplo, pode ter deixado sua marca nas equipes de vendas”.

 

Produtos – Provocar atrasos em cronogramas foi um dos principais reflexos da pandemia, e o que se espera nesse sentido, de acordo com os especialistas, é a reorganização do ciclo de lançamentos, notou Trujillo, da IHS Markit. "As empresas deverão focar nos investimentos em veículos que proporcionam maior rentabilidade, podendo, as empresas, reduzirem ou cancelarem versões e modelos menos rentáveis”.

 

E, como lembrou Cardamone, da Bright, os cronogramas em torno da venda de modelos elétricos deverão ser aqueles a serem submetidos a maiores alterações: “A adoção do veículo elétrico depende muito da construção de infraestrutura, do investimento público. Com os estados concentrados nas questões sanitárias, sobrará pouca atenção, e recursos, a esses projetos”. 

 

Foto: Divulgação.