São Paulo — A pandemia trouxe dificuldades para todos os setores econômicos do Brasil, com paralisação das linhas de produção, fechamento do comércio e retração dos indicadores de consumo. Foi nesse momento, no entanto, que muitas empresas redesenharam seus modelos de negócios e investiram em inovação, razão que indica que o momento de crise também é o das oportunidades.
Na segunda-feira, 28, no primeiro dia do seminário O Novo Brasil, o que Esperar do Futuro, organizado pela AutoData Editora, especialistas do setor automotivo e de máquinas e equipamentos se debruçaram sobre as opções que o quadro atual da economia do País oferece em termos de crescimento e de melhorias das estruturas sobre as quais estão sedimentadas as empresas desses setores.
Para José Velloso Dias Cardoso, presidente da Abimaq, a indústria de transformação, grupo ao qual pertence as companhias que formam o setor automotivo, não conseguiu se recuperar dos efeitos negativos da pandemia na mesma proporção que as empresas de outros setores. Isso porque, segundo ele, sobre os fabricantes e suas cadeias de fornecedores incidem o ônus tributário e político que impede a recuperação e o ganho de competitividade.
"O setor de automóveis não se recuperou como o de máquinas, que registrou os melhores julho e agosto desde 2013. Se o País não aproveitar o momento para realizar as reformas necessárias não conseguiremos nos posicionar como uma indústria competitiva que deverá ser global novamente a partir de novembro, quando acabará a onda Made in Brazil."
O representante da Abimaq apontou como os principais desafios a serem vencidos pela indústria nacional a realização das reformas, tanto a tributária, considerada a mais urgente, quanto a administrativa: "Elas poderiam provocar melhorias no mercado interno em termos de custos de produção".
Segundo ele 46% do custo total de produção da indústria nacional diz respeito à tributação: "Não dá pra ser competitivo com a China, por exemplo, que tem uma carga tributária de cerca de 8%. A reforma é urgente e precisa ser isonômica pelos setores. Os setores de mineração, o comércio e o agronegócio têm cargas tributárias muito menores".
O momento também seria propício para a união das empresas em torno de pautas comuns. De acordo com Ricardo Bacellar, diretor da área automotiva da KPMG, há hoje no mercado duas oportunidades: "Existe uma janela de oportunidades, mas com prazo. É momento de união para a resolução de temas caros ao setor e também é o momento de pensar fora da caixa, pensar em novas formas de receitas além dos modelos tradicionais".
Ele cita como exemplo de inovação de modelo de negócio aquele que foi criado pelas locadoras de veículos, que exploram automóveis como uma plataforma de serviços e também como um ativo importante que pode se vendido.
Para Flavio Padovan, CEO da Social In/Mentor & Business Advisor, a união das empresas poderá ajudar a indústria automotiva a ocupar a sua capacidade: "Nos momentos em que a indústria se uniu para discutir algum assunto houve avanços importantes, como por exemplo na época do Rota 2030. O que é preciso, hoje, é avançar em outras frentes, principalmente naquelas que tratam das exportações".
O mercado externo foi considerado importante por Paulo Cardamone, diretor da Bright Consulting: "O Brasil está geograficamente longe dos grandes mercados. Estreitar a distância se dá apenas por meio do custo. E como ter um custo mais competitivo que os asiáticos, por exemplo? De forma que a questão das exportações, que caíram em diversos setores durante a pandemia, tem que ser encarada como uma política de Estado e não apenas como um tema corporativo".
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