São Paulo – Que Argentina e Brasil são parceiros de longa data no setor automotivo e que os porcentuais de exportação de um para o outro são similares, colocando-os como principais parceiros comerciais de ambos, isso todo mundo sabe. O que surpreende, entretanto, é a diferença de participação nas vendas de autopeças. Enquanto um terço das importações de componentes da Argentina provém do Brasil, apenas 5% das compras brasileiras são argentinas.
Durante o primeiro dia do 4º Congresso Latino-Americano de Negócios da Indústria Automotiva, realizado pela AutoData Editora de forma online de 15 a 19 de agosto, Raúl Amil, presidente da Afac, Associação de Fábricas Argentinas de Componentes, expôs os dados e argumentou que o processo de integração e complementação de montadoras e fabricantes de autopeças no país é muito menos robusto, sem padrão de especialização.
Além disso os impostos são menores do que os que incidem sobre os veículos em outras localidades e que, aí, o processo de investimentos fica mais desequilibrado, citou Amil.
“Muitas vezes precisamos que a autopeça esteja na Argentina. Mas se não houver escala, como o mercado local é pequeno, causa desânimo ao investidor, que começa a se questionar se vale a pena seguir no país. Temos também a questão de produzir peças com tecnologia embarcada, adicionalmente ao problema de competitividade, que se agrava com a volatilidade da economia argentina, que passa por momento desafiador.”
Cláudio Sahad, presidente do Sindipeças, que dividiu painel com Amil, ponderou que embora a situação na Argentina pareça mais grave, até pela instabilidade do cenário macroeconômico, muito da diferença na questão das importações diz respeito ao tamanho dos mercados locais e ao volume de produção.
Disse também que é generalizada a necessidade de haver, na América Latina, políticas econômicas e industriais que sejam coerentes e perenes para reduzir o processo de desindustrialização que a região vem sofrendo nos últimos vinte anos e para ampliar a participação na manufatura mundial.
Sahad assinalou que nas duas últimas décadas os países latinos vêm perdendo relevância na produção de autopeças. O valor adicionado gerado pela indústria de transformação no PIB do continente, que era de 24,9% nos anos 1990, no ano passado recuou para 18,3%, de acordo com dados da Unido ONU, Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial.
Para efeito de comparação em 2020 esse porcentual era 31,3% na China sozinha, e 15,9% nos Estados Unidos. Na Índia era 3%, no México, 1,4% e, no Brasil, 1,3%.
“Quando falamos em políticas industriais é no sentido de conseguir melhorar nossa competitividade. Hoje vivemos momento especial para a América Latina, nessa mudança do pensamento pró-localização. Temos oportunidade enorme de localizar produtos e aumentar nosso volume e, consequentemente, ter integração maior no fornecimento mundial.”
No ranking mundial elaborado pela Unido ONU, composto por 154 países, o melhor posicionado do continente é o México, em vigésimo lugar, o Brasil em 42º e a Argentina em 57º: “Competitividade é a palavra-chave para mudar isso”.
Sahad complementou que oportunidade está na vocação da região, especialmente dos dois países, que é o motor à combustão – ao mesmo tempo em que a eletrificação dá as caras mais sob a forma de veículos híbridos devido ao alto custo. O executivo acredita que, havendo incentivo, ambos podem compor importante polo de exportação.