São Paulo – Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo deste ano por causa da persistente falta de semicondutores e dos reflexos da guerra na Ucrânia, principalmente no fornecimento de peças, no acesso à logística e nos preços pagos pelos produtos e serviços, sistemistas olham com otimismo para 2023. As dificuldades estimularam a nacionalização de componentes e o planejamento para localizar, inclusive, partes de veículos elétricos.
As impressões foram passadas pelos presidentes da Continental, Frédéric Sebbagh, da Dana, Raul Germany, e da Bosch, Gastón Diaz Perez, durante o encerramento do Congresso Perspectivas 2023, realizado pela AutoData Editora de forma online entre 24 e 28 de outubro.
Os fabricantes acreditam que no Brasil o motor à combustão continuará sendo predominante. No entanto a hibridização e a descarbonização, com a aposta em combustíveis alternativos, tenderão a ganhar cada vez mais espaço. E todos se disseram preparados para essa transição.
“Desde 2021 começamos a transferir linhas tradicionais dos Estados Unidos e Europa para o Brasil, o que deverá se aprofundar em um futuro próximo. No processo de eletrificação, começamos o planejamento de nacionalização de algumas linhas além de formar equipes de engenharia para dar suporte ao processo”, contou Germany.
Ele exemplificou que, no caso da Dana, que dedica sua produção a atender veículos comerciais, será possível usar biometano em vez de diesel, o que não deverá alterar muito o trem de força atual, só que emitindo muito menos CO2. Enquanto que um produto com eixo elétrico muda bastante, e a empresa está buscando qual solução se adequará melhor ao mercado a fim de nacionaliza-la.
A Bosch já possui componentes para caminhões elétricos que estão circulando no Brasil. Para a parte de hibridização a fabricante possui alguns projetos com clientes, em fase de desenvolvimento, e outros mais concretos, como caixas de comando do sistema híbrido.
“Isso tem um impacto que já está acontecendo e envolvendo a produção local, inclusive, a de componentes eletrônicos, e não só de injeção. Acho que a maior eletrônica embarcada nos carros também nos traz muitas oportunidades”, disse Perez.
O executivo ponderou que qualquer suporte que possa ser obtido junto ao governo para que se estimule a localização dessa eletrônica, cada vez mais relevante no veículo, é fundamental. “Queremos produzir mais aqui.”
No caso da Continental a hibridização não impacta diretamente o portfólio, diferentemente dos elétricos, que exigem outro tipo de pneu, assim como de correias. Sebbagh afirmou que a fabricante está trabalhando na renovação da oferta desses produtos, mas que, por enquanto, ainda é prematuro estimar esse impacto.
“Temos de esperar que haja consenso claro por parte dos nossos clientes, a fim de que definam o ritmo de transição tecnológica e quais opções serão seguidas. Nossa impressão é a de que ela será bem ampla e diversa. Acreditamos que esse impacto virá mesmo em oito ou dez anos. Até lá seguimos no modo de expectativa.”
Ele defendeu pontos positivos no País, como custo da energia elétrica até dez vezes inferior a de países europeus, como a França, mas também disse que, para elevar a competitividade e atrair mais os olhares das matrizes, é preciso solucionar o custo Brasil e aprovar reformas estruturais, como a fiscal.
Os executivos acreditam que, com maior estabilidade e previsibilidade, o Brasil poderá ampliar seu potencial de plataforma exportadora o que, inclusive, ajuda a balizar as finanças e garantir vida ainda mais longa das operações no País.