SÓ PARA ASSINANTES - Associados do Clube AutoData passam a receber todas as quartas-feiras matérias especiais e exclusivas. Nesta semana analisamos a projeção global de vendas em 2023.
São Paulo – Já estamos na metade do ano e ainda está difícil dizer com propriedade qual será o mercado global automotivo em 2023. Os sinais de uma recessão de magnitude planetária deram início, ainda em 2022, a uma tendência conservadora para as projeções, tanto com relação aos dados macroeconômicos quanto para a indústria em geral. Porém, mesmo considerando prováveis impactos negativos causados sobretudo pelos ainda fortes reflexos da pandemia nas atividades econômicas e no nível de emprego, da continuidade da crise de abastecimento de insumos e, também, os desdobramentos da guerra na Ucrânia, qualquer que seja o resultado final representará uma vitória para a indústria automotiva. Afinal, diante da magnitude desses desafios crescer as vendas de 4% a quase 6%, dependendo da aposta, não será nada mal.
Como ainda navegamos guiados pelos números dos primeiros meses do ano, falta ritmo e dados concretos para olhar adiante com mais ou menos otimismo. Por isto expectativa mais apurada para 2023 se dará sobretudo no segundo semestre, tradicionalmente mais aquecido do que o primeiro.
No entanto, a impossibilidade de superar com propriedade as 81,6 milhões de unidades de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus negociados no planeta em 2022 [-1,4% sobre 2021], levam as projeções de algumas consultorias e bancos olharem para o horizonte com certa cautela.
Observando as projeções abaixo houve divergências sobre o resultado de 2022. Portanto, o consenso ainda está longe das principais consultorias e bancos globais para o número de 2023. No entanto, considerando a série histórica das análises desses especialistas é possível determinar que o crescimento não ficará tão distante da variação mínima e máxima – excluindo a projeção da última consultoria.
Por razões distintas os maiores mercados globais, a China e os Estados Unidos, são candidatos a puxar a fila do crescimento este ano. Crescimento acanhado, diga-se, para o que se esperava destes dois gigantes.
Dependendo dos especialistas que analisaram as possibilidades para a China o crescimento poderá repetir o porcentual médio global de 4% em 2023. A divisão especialista em mobilidade da consultoria de classificação de crédito Standard & Poor’s, S&P Global, é uma das mais otimistas em sua avaliação. Diz que a extensão de 100 bilhões de yuans [algo como US$ 14,8 bilhões] em descontos ao consumidor para a aquisição de veículos eletrificados poderão levar o mercado interno a 25,9 milhões de unidades este ano, crescimento de 4,5% sobre 2022. Mas a flexibilização das regras de isolamento por causa da covid traz uma “incerteza significativa” para a expectativa da S&P Global Mobility.
O inglês ING, numa das raras avaliações de um banco para o setor automotivo totalmente aberta para consultas públicas, também acredita que haverá expansão do mercado chinês, algo como 4%, por causa do ritmo de produção interno mais consistente este ano. E segundo relatório do Banco Mundial, a economia crescerá 4,3% em 2023, em comparação com o tímido avanço, para os padrões chineses, de 2,7% em 2022.
Ou seja, o mercado chinês tende a avançar por causa de um processo de recuperação econômica e particularmente impulsionado pela política de incentivos aos veículos de baixíssima ou nenhuma emissão.
É importante ressaltar que, ao contrário de outros mercados como o europeu, não há uma transição em curso nos veículos novos vendidos na China. A frota circulante é muito jovem. Então não há uma frota envelhecida de modelos a combustão interna que precisam ser substituídos. Lá há muitos consumidores iniciando sua jornada já na eletrificação. As marcas chinesas sabem bem disso e demonstram com seus produtos que estão preparadas para enfrentar a lenta concorrência das tradicionais fabricantes.
Já o mercado estadunidense não acompanha o ritmo chinês. Primeiramente não há um volume tão robusto de incentivos para a aquisição de um veículo elétrico. Somado à ainda velada relutância de muitos consumidores ao produto 100% elétrico, a falta de uma rede de abastecimento capaz de fazer frente aos postos de combustíveis tradicionais e, mais importante, as condições macroeconômicas do País, as vendas não deslancham.
A economia dos Estados Unidos cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2023, desacelerando de uma expansão de 2,6% no trimestre anterior e abaixo das expectativas do mercado de um crescimento de 2%, de acordo com dados preliminares. A inflação medida pelo Federal Reserve segue em alta, de 4,2%, além do esperado, que era de 3,7% no período.
Com tantos desafios internos a melhor expectativa até o momento é que as vendas nos Estados Unidos sejam de 14,8 milhões de unidades em 2023, tímido avanço sobre os 13,8 milhões do ano passado, que representou queda de 7,6% com relação ao ano pandêmico de 2021 e quase 20% menos do que as 17 milhões de unidades de 2019, segundo os dados da Oica.
Na Europa, cujo discurso era o de liderar a descarbonização global por meio da eletrificação, o cenário começa a mudar. A União Europeia deliberou sem as fabricantes e prometeu criar leis para banir os motores de combustão interna nos seus países membros já na próxima década, mas em março voltou atrás, a contragosto, e permitirá que esses propulsores continuem impulsionando os veículos que utilizarem combustíveis sem CO2, caso dos e-fuels sintéticos e biocombustíveis até 2035.
Aos poucos a ficha começa a cair e a Alemanha, berço da indústria automotiva naquele continente, liderou a argumentação de que será impossível atingir os objetivos apenas com veículos com propulsores e movidos exclusivamente com energia elétrica limpa. Somando o Leste europeu estamos falando da segunda maior frota em circulação no planeta, com 405 milhões de veículos, segundo a Oica.
Mas não é só isso. A recessão global nasceu na Europa, com a guerra na Ucrânia e todos os efeitos que surgiram depois. Por isto os mercados não conseguem recuperar os volumes pré-pandêmicos. Falta quase tudo: semicondutores para produzir veículos novos, empregos, crédito… O resultado é um tombo de 5,9% nas vendas em 2022 sobre 2021 e que, comparado com os negócios feitos antes do início da pandemia, já se aproxima a uma retração de quase 30% [exatos -27,8% com relação às vendas de 2019].
Com estes números e contexto pode até parecer uma ótima notícia a projeção da consultoria LMC Automotive, que espera crescimento de 8,2% do mercado europeu este ano. Dois fatores, no entanto, chamam a atenção na análise da consultoria: a pequena base para a comparação, ou seja, o resultado de 2022. E o mais preocupante, principalmente para os fabricantes locais: maior participação dos veículos elétricos chineses nas vendas, pois o consumidor, além de estar perdendo qualquer tipo de preconceito com a nacionalidade do veículo, tem nos preços mais competitivos dos chineses um bom argumento para trocar as marcas germânicas, francesas e inglesas.
Outro fator importantíssimo para as análises e projeções do mercado global são as condições econômicas do candidato a comprar um carro este ano. Há uma clara deterioração do poder de compra ao mesmo tempo que os produtos, no caso automóveis, estão cada vez mais caros. Principalmente os elétricos, que carregam novas tecnologias e itens caríssimos, como as baterias de íon-lítio.
Dessa forma o mercado de carros usados está aquecido em todo o planeta. Basta olhar para o Brasil: os dados mais recentes divulgados pela Fenauto, Federação Nacional do Setor de Revenda de Automóveis, apontam um crescimento de 18,8% das vendas nos primeiros cinco meses de 2023 contra igual período do ano passado.
Foram mais de 4 milhões de unidades negociadas neste período, volume que é quase o dobro esperado para a totalidade de vendas de veículos novos em 2023 no Brasil. A expectativa da entidade é que este ano sejam comercializados 15 milhões de veículos usados no País.
A Europa e o mercado da América do Norte combinados possuíam, até o ano passado, frota de 750 milhões de veículos com mais de 10 anos de uso. A renovação é uma oportunidade e tanto para os fabricantes, porém a expectativa no curto prazo é que haja uma demanda enorme por peças de reposição, pneus e outros itens, como fluídos, utilizados nos veículos nestes dois mercados.
Esta lógica global se repete no mercado interno. Os preços dos carros elétricos, assim como os carros novos no Brasil, inibem as compras do 0 KM. Por isto o motorista dará prioridade para a manutenção do seu veículo. No ano passado o mercado global de reposição cresceu 3% com faturamento de US$ 64 bilhões.
A julgar por esta demanda crescente e o mesmo movimento observado recentemente na Automec, além de condições específicas como a crise no mercado argentino, em recessão, há forte tendência de crescimento do mercado de reposição para a manutenção do veículo atual ou da compra de veículos usados, mais baratos.
Todos esses fatores causarão impactos na venda de carros zero quilômetro, que pode continuar avançando em ritmo insuficiente para justificar a capacidade produtiva, ociosa tanto aqui no Brasil como em outros países.