São Paulo — A Volkswagen promete para maio o lançamento de uma série especial do T-Cross no Brasil, apostando na conexão com o futebol. Batizada como Seleção a versão marca a primeira vez que um SUV VW recebe uma edição temática ligada ao esporte. A iniciativa ocorre em meio à consolidação do T-Cross como um dos seu principais produtos no País.
Produzido em São José dos Pinhais, PR, o modelo já superou 600 mil unidades desde o lançamento, em 2019, e segue como um dos líderes do segmento de utilitários esportivos.
A nova versão é baseada na configuração Sense e traz uma ampliação de equipamentos, além de elementos visuais exclusivos. Dentre os destaques estão rodas de 17 polegadas, acabamentos específicos e identidade visual inspirada na Seleção Brasileira, incluindo adesivos e pormenores ligados à parceria com a CBF.
No pacote de série o modelo mantém itens como seis airbags, controles eletrônicos de estabilidade e tração, painel digital e central multimídia VW Play. Também incorpora conteúdos de versões superiores, estratégia comum para aumentar a atratividade dentro de uma faixa de preço mais competitiva.
Outro diferencial é a adoção de pneus com tecnologia Seal Inside, desenvolvida pela Pirelli, que permite rodagem mesmo em caso de perfuração, reduzindo a necessidade de parada imediata.
Sob o capô o T-Cross Seleção mantém o motor 1.0 turbo 200 TSI, associado ao câmbio automático de seis marchas, conjunto já consolidado na linha.
A nova série também reforça plano recorrente da Volkswagen no Brasil: o uso de edições especiais ligadas ao futebol. A prática começou ainda nos anos 1980 com versões do Gol associadas a Copas do Mundo e voltou a ganhar força em diferentes momentos, agora adaptada ao segmento de SUVs, que hoje concentra a maior demanda do mercado.
São Paulo — A Daimler Truck concluiu a integração da Mitsubishi Fuso Truck and Bus à nova holding Archion Corporation, que passou a operar e estreou na bolsa de Tóquio em 1º de abril. A estrutura reúne também a Hino Motors, subsidiária da Toyota Motor Corporation. A nova companhia nasce com controle total sobre Fuso e Hino, enquanto Daimler Truck e Toyota devem manter cerca de 25% de participação cada, permanecendo como acionistas estratégicos.
A criação da Archion marca a consolidação das operações das duas fabricantes com origem no Japão, com integração de áreas como desenvolvimento, compras, produção e logística. A proposta é ganhar escala e eficiência em um dos principais mercados globais de veículos comerciais.
A direção da nova holding ficará com Karl Deppen, que deixou o conselho da Daimler Truck para assumir a presidência e a direção executiva da empresa.
A nova holding também deve concentrar esforços em tecnologias como célula de combustível e condução autônoma, além de acelerar sinergias das marcas.
Com a mudança a Daimler Truck mantém atuação direta na Ásia com as marcas Mercedes-Benz e BharatBenz, enquanto a distribuição da Fuso passa a ser reorganizada em alguns mercados onde antes havia operação conjunta.
São Paulo — A operação brasileira da MG Motor acelerou em março, com crescimento expressivo nas vendas e avanço da rede comercial em diferentes regiões do País. A empresa teve emplacados trezentos veículos no período, ante 114 unidades em fevereiro, o que representa alta superior a 160% na comparação mensal.
O resultado ocorre em meio à ampliação da presença MG Motor no território nacional. A empresa tem expandido sua rede de concessionárias para além dos mercados já consolidados no Sul, Sudeste e Distrito Federal, avançando agora sobre Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Novos pontos de venda já operam em Cuiabá, MT, Belém, PA, Salvador, BA, Fortaleza, CE, e Goiânia, GO, e outras unidades estão em fase final de acabamento.
São Paulo – Foram comercializados no primeiro trimestre 5,9 mil ônibus, 13,2% abaixo do mesmo período de 2025, quando as vendas alcançaram 6,8 mil unidades, de acordo com dados da Fenabrave. Mas, assim como no caso dos caminhões, o ritmo da queda foi amenizado uma vez que no bimestre a retração foi de 33,4%, com 2,4 mil veículos emplacados.
Na visão da entidade isso tem ocorrido em virtude do rescaldo da entrega de ônibus escolares por meio do programa Caminho da Escola, o que impulsionou emplacamentos, principalmente, em março:
“Havia veículos já aprovados mas ainda não faturados”, disse Marcelo Franciulli, diretor executivo da Fenabrave, durante entrevista coletiva à imprensa realizada na terça-feira, 7.
No mês passado foram registrados 2,4 mil novos ônibus, 42% acima dos 1,7 mil de fevereiro e 11% mais que os 11,3 mil do mesmo mês do ano passado, 2,2 mil unidades: “Este é um setor bastante impactado por compras públicas, cujas vendas são fortemente impulsionadas por licitações”.
São Paulo – Os 625,1 mil veículos vendidos no mercado brasileiro, somados leves e pesados, no primeiro trimestre surpreenderam os dirigentes da Fenabrave. O resultado, 13,3% superior ao do mesmo período do ano passado, ficou acima de qualquer expectativa otimista. Especialmente março, com suas 269,5 mil unidades e alta de 37,9% sobre igual mês do ano passado e de 45,6% sobre fevereiro, ainda que os dois meses tenham impacto do carnaval.
Quem puxa a alta é o segmento de automóveis e comerciais leves, que somou 597,5 mil licenciamentos de janeiro a março, avanço de 15,4% sobre os três primeiros meses de 2025. Em março foram 258,2 mil emplacamentos, 40,2% de avanço na comparação anual e 46,1% na mensal.
“Também nos perguntamos a razão para este resultado”, afirmou Arcélio Júnior, presidente da Fenabrave, diante de tantas dificuldades em um mercado com elevadas taxas de juros e cheio de incertezas com a eleição e o cenário geopolítico desfavorável. “Temos algumas respostas: com o mercado muito competitivo as montadoras estão lançando mão de promoções para manter a sua fatia da pizza. E o programa Carro Sustentável.”
De janeiro a março foram emplacadas 109,6 mil unidades dos modelos que tiveram o IPI zerado por atender exigências de eficiência energética, sustentabilidade e adensamento industrial, 58% a mais do que em igual período do ano passado. Somente em março foram 51,3 mil licenciamentos, avanço de 83,2% com relação ao mesmo mês de 2025.
“O desempenho dos veículos do programa Carro Sustentável no mercado comprovam aquilo que nós, da Fenabrave, sempre dissemos: menos impostos faz o preço baixar e as vendas crescerem.”
Arcélio Jr destacou também a grande quantidade de promoções que concessionárias e montadoras vêm fazendo nas últimas semanas. É decorrente do aumento de competição, com a chegada de novas marcas que trouxeram produtos com preços agressivos:
“As montadoras estão lutando por sua fatia da pizza. O total vem crescendo, mas tem mais gente disputando. O mercado brasileiro é um dos mais disputados do mundo”.
Ele destacou a participação do varejo nos emplacamentos, que ficou em 52,3% de janeiro a março, com o restante representando faturamento direto – que, lembrou, inclui vendas a produtores rurais, PcDs e CNPJ, que são boa parte fechadas nas concessionárias: “Não são as locadoras que estão puxando o mercado”.
A Fenabrave manteve suas projeções para o ano: 3% de crescimento, para 2 milhões 770 mil unidades. Segundo Arcélio Jr na próxima entrevista coletiva à imprensa, agendada para julho, deverá haver uma correção: “Optamos por esperar por causa do cenário geopolítico, que está influenciando na economia brasileira”.
São Paulo – Diante do esgotamento dos R$ 10 bilhões de recursos direcionados pelo governo federal ao programa Move Brasil, que buscou fomentar a venda de caminhões a juros subsidiados, o presidente da Fenabrave, Arcélio Júnior, afirmou que fez um pleito para a renovação da iniciativa e sua ampliação para ônibus e implementos rodoviários.
A entidade acredita que equipe do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Comércio, Indústria e Serviços, vá se debruçar para encontrar soluções em busca de tornar o programa perene, embora não aposte que isso seja para já, mesmo com a urgência de iniciativa. A aposta está em mais uma rodada de liberação de recursos que alcancem metade do valor da primeira, de R$ 10 bilhões, ou empatem com ela.
O Move Brasil amenizou a intensidade da queda nas vendas deste ano, que já chegou a 28%, mas não foi suficiente para estancá-la. Foram emplacados 21,7 mil caminhões de janeiro a março, 19,3% abaixo do mesmo período em 2025, quando as vendas somaram 27 mil unidades.
Marcelo Franciulli, diretor executivo da Fenabrave, afirmou que “melhorou um pouco”, apesar do crédito, que segue caro, e mesmo com a expectativa pela liberação de novos recursos, “que faz com que o empresário do setor de transporte breque o apetite pela renovação de sua frota”.
No mês passado foram comercializados 8,7 mil caminhões, 3,6% abaixo de março de 2025, que registrou 9,1 mil unidades, mas 32,6% acima de fevereiro, quando as vendas haviam alcançado 6,6 mil unidades.
“Os recursos se esgotaram mas promoveram certa recuperação no setor. E ainda há veículos que não foram emplacados e, portanto, não estão nos números do trimestre. E como o programa permitia a compra de caminhões usados a partir de 2012, uma parte da verba não refletiu no setor de 0 KM.”
A importância do programa cresce em tempos de incertezas, em que a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã tende a elevar os preços dos combustíveis, apesar da ação do governo, o que pode pressionar a inflação. Na avaliação da economista Tereza Fernandez, da TF Consultoria, o cenário tende a refletir em uma queda menos acentuada da taxa básica de juros, hoje em 14,75% ao ano, para 13% ao ano.
“As projeções estão sub judice. São muitas as variáveis e, a depender dos juros, algumas delas, como crédito e inadimplência, serão prejudicadas”, disse Fernandez, para quem, neste momento, fica difícil realizar qualquer projeção. Tanto é que a Fenabrave só revisará suas projeções em julho, na expectativa de que haja mais clareza da situação.
São Paulo – Desde agosto do ano passado a GWM tem produzido veículos na fábrica de Iracemápolis, SP. E, segundo seu fundador, Jack Wey, a proposta não é apenas vender carros no País, mas tornar-se parte da indústria automotiva brasileira.
Foi o que afirmou o executivo durante o Congresso AutoData Megatendências 2026: “Para nós, o Brasil não é somente um mercado importante, mas também um pilar estratégico para o futuro global.”
Jack Wey, chairman global da GWM
Apesar de ainda não ter completado seu primeiro ano de produção local, Wey afirmou que, desde o início, foi definida direção clara: não buscar vendas de curto prazo, mas um compromisso de longo prazo.
O mais importante, assegurou, não é a velocidade, e sim a consistência. “A globalização automotiva não deve ter como objetivo apenas o volume de vendas de curto prazo nem pode depender de competição baseada em preço que desgaste a marca mas, sim, construir reputação com produtos confiáveis, serviços dedicados e investimentos contínuos, fortalecendo a reputação da marca.”
Ao reforçar preferência da companhia em avançar com cautela e solidez, defendeu que a verdadeira globalização não é vender globalmente, mas industrializar localmente. “Queremos que os veículos da GWM produzidos no Brasil representem não apenas a tecnologia chinesa, mas também a manufatura brasileira.”
Wey disse ainda que a indústria automotiva entrou em uma fase fortemente colaborativa, ao reforçar que nenhuma empresa consegue inovar sozinha. “As montadoras chinesas que chegam ao Brasil devem crescer junto com a cadeia de fornecedores local, instituições de pesquisa, universidades e parceiros, construindo um ecossistema industrial saudável e sustentável.”
São Paulo — Embora a eletrificação seja um caminho sem volta a trajetória brasileira deve seguir marcada por soluções híbridas e pelo uso intensivo de biocombustíveis, combinando transição energética com viabilidade econômica e infraestrutura disponível. Este avanço da eletrificação, a força dos biocombustíveis e a pressão competitiva de novos entrantes, especialmente chineses, dominaram o debate do painel O Futuro dos Automóveis: a Nova Dinâmica Tecnológica que Redefinirá a Indústria nos Próximos Anos, realizado na segunda-feira, 6, durante o Congresso Megatendências promovido por AutoData em São Paulo.
Um dos pontos centrais foi o processo de nacionalização de componentes, considerado fundamental para sustentar a indústria local. Segundo Roberto Braun, presidente da Fundação Toyota e diretor da Toyota do Brasil, a internalização segue diretamente o crescimento da demanda: “A localização acompanha a escala, toda tecnologia é introduzida com componente importado e depois vem a nacionalização”. Ele destacou ainda que o movimento começa pelos sistemas mais críticos, como o motor a combustão associado ao conjunto híbrido.
Ricardo Plöger, vice-presidente de desenvolvimento do produto da Volkswagen, reforçou que o Brasil já conta com base industrial consolidada, mas alertou para a necessidade de equilíbrio no ritmo de investimentos: “Temos quatro plantas locais e todos os nossos produtos têm um grau de regionalização de 70% a 80%. Precisamos exercer este movimento de forma moderada para gerar o volume necessário para que o investimento tenha retorno”.
Ricardo Plöger, da Volkswagen. Fotos: Bruna Nishihata.
A competitividade diante da entrada de novos competidores também foi amplamente discutida. Para o executivo da Volkswagen a estrutura instalada no País ainda é um diferencial relevante: “Temos uma engenharia local com mais de 1,2 mil engenheiros para atender a região. O que a gente pede é que a regra do jogo seja igual para todo mundo”.
Braun seguiu na mesma linha, defendendo isonomia regulatória: “A competição é importante para impulsionar o setor, mas é importante sempre ter regras iguais para que a competição seja justa em bases iguais”.
O avanço acelerado das montadoras chinesas, especialmente em eletrificação, levantou questionamentos sobre uma possível defasagem das fabricantes tradicionais. Plöger rejeitou esta leitura e destacou o histórico da Volkswagen em mobilidade de baixo carbono: “Foi uma das primeiras com tecnologia verde e estamos crescendo de forma forte na Europa com relação aos carros elétricos”.
No Brasil, porém, defendeu uma abordagem distinta: “A gente sempre teve o flex. Se for olhar na mobilidade verde é extremamente sustentável. A combinação do flex com o híbrido é muito mais sustentável em risco de CO² do que um elétrico”. Ele reforçou ainda o conceito de democratização tecnológica neste cenário: “Trazer tecnologias para serem acessíveis, que o consumidor consiga comprar”.
Roberto Braun, da Toyota. Fotos: Bruna Nishihata.
Braun ressaltou que a eletrificação seguirá avançando globalmente, mas ponderou que, no contexto brasileiro, o etanol desempenha papel central: “A eletrificação continuará aumentando no mercado. Apesar disto aqui a disponibilidade de etanol dá muito sentido a esta combinação da eletrificação com o etanol”.
Em meio ao cenário geopolítico incerto, com conflitos e impactos sobre energia, os executivos apontaram oportunidades para o Brasil exportar sua experiência com biocombustíveis. Braun relembrou a origem do programa brasileiro: “Tivemos o advento do pró-álcool pela crise do petróleo. É natural que, em uma situação de crise como estamos vivendo agora, seja muito oportuno falar deste assunto”.
Plöger acrescentou que o tema já está em discussão em diferentes mercados: “Hoje temos Paraguai, Índia está em discussão, já pautamos este tema na Alemanha, mas não é uma discussão fácil. Tem que ser contínua”. Segundo ele, a presença global das montadoras pode acelerar o processo.
Braun reforçou o plano de múltiplas rotas tecnológicas, mas com foco local: “Acreditamos em todas as tecnologias, teremos elétrico no Brasil, mas entendemos que o carro flex continua sendo central”.
Segurança e conectividade também são tendência
Além da eletrificação os executivos destacaram outras megatendências que devem moldar o setor. Para Plöger segurança e conectividade serão determinantes: “A segurança ativa crescerá muito, com tecnologias que minimizam acidentes chegando aos carros de entrada. E, sem dúvida, a conectividade: ninguém consegue viver sem smartphone, os carros serão integrados”.
Braun lembrou a ampliação do ecossistema automotivo: “Conectividade, compartilhamento de veículos, direção assistida e eletrificação estarão cada vez mais integradas aos produtos”.
São Paulo – Fabricantes de veículos comerciais seguem preocupados com as incertezas do mercado uma vez que, mesmo com o programa Move Brasil e o crédito de R$ 10 bilhões a juros subsidiados, as vendas de caminhões encolheram 28,7% no primeiro bimestre, totalizando 13,1 mil unidades. Para impulsionar os emplacamentos é necessária a renovação da iniciativa, o que estaria sendo preparado pelo governo.
Márcio Querichelli, da Iveco. Fotos: Bruna Nishihata
Foi o que demonstraram, em uníssono, durante o Congresso Megatendências 2026, realizado por AutoData na segunda-feira, 6, o presidente da Iveco na América Latina, Márcio Querichelli, o presidente e CEO da Scania na América Latina, Christopher Podgorski, e o presidente e CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus, Roberto Cortes.
Os executivos estão esperançosos quanto a um anúncio de restauração do Move Brasil, que tem possibilidades de vir de forma definitiva como programa de renovação de frota, e fazem coro quanto à necessidade de incluir à iniciativa implementos rodoviários e ônibus, além de ampliar as oportunidades aos autônomos, que acabam arcando com juros um pouco maiores.
Christopher Podgorski, da Scania. Fotos: Bruna Nishihata.
Cortes lembrou que, “diferentemente de automóveis, o setor de caminhões envolve uma decisão de investimento. E, em um contexto tão incerto, com dificuldades econômicas e guerras, a compra é postergada”.
Querichelli complementou que os recursos do Move Brasil terminaram em um período complicado, no fim de março, e que, frente à expectativa de que o programa seja restabelecido, tem-se mais um motivo para segurar a decisão acerca da aquisição do veículo: “Isso nos preocupa bastante, pois os juros ainda estão bastante elevados, o que afeta principalmente o segmento de extrapesados”.
Cadeia de fornecedores
Em paralelo ponto citado foi a preocupação com a competitividade dos fornecedores. Podgorski ressaltou que o negócio de transporte começou muito desafiador em 2026, e que as margens estão bastante estreitas, o que complica mais o cenário: “Investimentos locais também são importantes para que a cadeia torne-se mais competitiva”, afirmou, ao reforçar que, apesar dos percalços, o custo ainda vale a pena frente a outras partes do mundo, inclusive da China, que também tem “seus pênaltis logísticos”.
Cortes, da VW Caminhões e Ônibus. Fotos: Bruna Nishihata
Para Cortes o que mais preocupa é a escala, o que acaba sendo prejudicado pelo custo Brasil: “Nós não podemos ser oportunistas e dizer que compraremos tudo da China e da Índia. Até porque, quando voltarmos ao patamar de 200 mil unidades, o que espero que seja logo, precisamos ter um parque fornecedor bem estabelecido”.
No ano passado saíram das linhas de produção 124,1 mil unidades, 12,1% menos que as 141,3 mil unidades de 2024.
São Paulo — A indústria automotiva brasileira ocupa lugar singular na economia nacional. A análise é de Margarete Gandini, diretora do departamento de desenvolvimento da indústria de alta-média complexidade tecnológica do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, que falou sobre os programas do governo federal e especificamente sobre o Mover durante o Congresso Megatendências 2026, realizado por AutoData em São Paulo.
“É uma plataforma estratégica para a produção industrial, a inovação tecnológica e a descarbonização do País”, afirmou, destacando que o setor funciona como núcleo organizador de toda a indústria nacional, empregando 1,3 milhão de trabalhadores e conectando cadeias que vão da siderurgia ao alumínio, dos plásticos à eletrônica embarcada.
Estruturado para quinze anos, e alinhado às missões de mobilidade, logística e transição energética, o Mover representa o maior ciclo de investimentos do setor automotivo no Brasil. Os créditos fiscais previstos somam R$ 19,3 bilhões, dos quais R$ 10,4 bilhões já estão autorizados, o que alavancou anúncios de investimento de aproximadamente R$ 190 bilhões por parte de montadoras e autopeças.
Margarete considera o Mover o programa mais transformador da política industrial, que evoluiu de iniciativas anteriores e incorpora aspectos como pegada de carbono, ciclo de vida e reciclagem de materiais, com novos elementos previstos em ciclos futuros. Apesar do sucesso há regulamentações pendentes em discussão, incluindo declarações, conteúdo local, reciclagem e fiscalização, envolvendo diferentes setores e atores para garantir uma visão colaborativa.
A transição para um imposto seletivo, que substitui o IPI Verde e inclui critérios adicionais como densidade tecnológica e pegada de carbono, está prevista para ser regulamentada no próximo ano. Segundo ela a reforma tributária buscará reduzir a carga tributária, prevista para entrar em vigor em janeiro de 2027, a fim de fortalecer a indústria nacional e promover uma nova fase de crescimento.
Margarete Gandini, diretora do departamento de desenvolvimento da indústria de alta-média complexidade tecnológica do MDIC. Fotos: Bruna Nishihata.
A visão de longo prazo, projetada para 2040, propõe uma transformação conceitual profunda: “Não estamos falando apenas de uma indústria de veículos. Estamos construindo uma indústria de mobilidade e logística”.
Ela descreveu ecossistema que integra descarbonização, inovação, adensamento produtivo, inserção internacional e renovação contínua da frota. As políticas, nesta perspectiva, precisam articular veículos, infraestrutura energética, conectividade e reciclagem de forma sistêmica.
Este ecossistema se organiza em cinco dimensões. A dimensão verde aposta em economia circular, regulamentação pelo ciclo de vida completo e um sistema de bônus e malus no imposto seletivo, além de valorizar o que Margarete chama de “narrativa brasileira de mobilidade de baixo carbono”. A dimensão tecnológica reconhece que a conectividade redefine o setor – eletrônica embarcada, sistemas de controle, comunicação em tempo real e serviços digitais passam a ser centrais –, exigindo maior densidade produtiva local para reduzir a dependência de importações de módulos e software.
A dimensão integrada pressupõe um ecossistema industrial coordenado, em que montadoras compram mais componentes nacionais e fornecedores participam desde o início do desenvolvimento do produto. “Inovação, produção e logística precisam convergir”.
A dimensão exportadora projeta o Brasil como plataforma regional de produção para a América do Sul, exportador de mobilidade limpa com rota tecnológica própria – biocombustíveis e eletrificação seletiva, incluindo híbridos e híbridos leves –, com foco em mercados de renda média e exportação de autopeças e engenharia tropicalizada. A dimensão competitiva traz uma mudança de métrica: “O objetivo não é apenas produzir mais veículos. É reter mais valor industrial por veículo produzido”.
A tropicalização passa a ser premissa do desenvolvimento e a produtividade deve crescer em toda a cadeia, integrando montadoras, sistemistas e fornecedores, com incentivos à automação, digitalização, novos materiais e fortalecimento das ferramentas de engenharia local.
Margarete concluiu ser fundamental transformar a indústria automotiva brasileira em uma plataforma nacional de mobilidade sustentável que, para além de seus próprios produtos, impulsione dezenas de outros setores econômicos e de serviços – conectando fabricantes, fornecedores, energia, logística e regulação em torno de plano e objetivos comuns.