Painel do Congresso Megatendências, de AutoData, reúne montadoras em debate sobre tecnologia e indústria local
São Paulo — Embora a eletrificação seja um caminho sem volta a trajetória brasileira deve seguir marcada por soluções híbridas e pelo uso intensivo de biocombustíveis, combinando transição energética com viabilidade econômica e infraestrutura disponível. Este avanço da eletrificação, a força dos biocombustíveis e a pressão competitiva de novos entrantes, especialmente chineses, dominaram o debate do painel O Futuro dos Automóveis: a Nova Dinâmica Tecnológica que Redefinirá a Indústria nos Próximos Anos, realizado na segunda-feira, 6, durante o Congresso Megatendências promovido por AutoData em São Paulo.
Um dos pontos centrais foi o processo de nacionalização de componentes, considerado fundamental para sustentar a indústria local. Segundo Roberto Braun, presidente da Fundação Toyota e diretor da Toyota do Brasil, a internalização segue diretamente o crescimento da demanda: “A localização acompanha a escala, toda tecnologia é introduzida com componente importado e depois vem a nacionalização”. Ele destacou ainda que o movimento começa pelos sistemas mais críticos, como o motor a combustão associado ao conjunto híbrido.
Ricardo Plöger, vice-presidente de desenvolvimento do produto da Volkswagen, reforçou que o Brasil já conta com base industrial consolidada, mas alertou para a necessidade de equilíbrio no ritmo de investimentos: “Temos quatro plantas locais e todos os nossos produtos têm um grau de regionalização de 70% a 80%. Precisamos exercer este movimento de forma moderada para gerar o volume necessário para que o investimento tenha retorno”.
Ricardo Plöger, da Volkswagen. Fotos: Bruna Nishihata.
A competitividade diante da entrada de novos competidores também foi amplamente discutida. Para o executivo da Volkswagen a estrutura instalada no País ainda é um diferencial relevante: “Temos uma engenharia local com mais de 1,2 mil engenheiros para atender a região. O que a gente pede é que a regra do jogo seja igual para todo mundo”.
Braun seguiu na mesma linha, defendendo isonomia regulatória: “A competição é importante para impulsionar o setor, mas é importante sempre ter regras iguais para que a competição seja justa em bases iguais”.
O avanço acelerado das montadoras chinesas, especialmente em eletrificação, levantou questionamentos sobre uma possível defasagem das fabricantes tradicionais. Plöger rejeitou esta leitura e destacou o histórico da Volkswagen em mobilidade de baixo carbono: “Foi uma das primeiras com tecnologia verde e estamos crescendo de forma forte na Europa com relação aos carros elétricos”.
No Brasil, porém, defendeu uma abordagem distinta: “A gente sempre teve o flex. Se for olhar na mobilidade verde é extremamente sustentável. A combinação do flex com o híbrido é muito mais sustentável em risco de CO² do que um elétrico”. Ele reforçou ainda o conceito de democratização tecnológica neste cenário: “Trazer tecnologias para serem acessíveis, que o consumidor consiga comprar”.
Roberto Braun, da Toyota. Fotos: Bruna Nishihata.
Braun ressaltou que a eletrificação seguirá avançando globalmente, mas ponderou que, no contexto brasileiro, o etanol desempenha papel central: “A eletrificação continuará aumentando no mercado. Apesar disto aqui a disponibilidade de etanol dá muito sentido a esta combinação da eletrificação com o etanol”.
Em meio ao cenário geopolítico incerto, com conflitos e impactos sobre energia, os executivos apontaram oportunidades para o Brasil exportar sua experiência com biocombustíveis. Braun relembrou a origem do programa brasileiro: “Tivemos o advento do pró-álcool pela crise do petróleo. É natural que, em uma situação de crise como estamos vivendo agora, seja muito oportuno falar deste assunto”.
Plöger acrescentou que o tema já está em discussão em diferentes mercados: “Hoje temos Paraguai, Índia está em discussão, já pautamos este tema na Alemanha, mas não é uma discussão fácil. Tem que ser contínua”. Segundo ele, a presença global das montadoras pode acelerar o processo.
Braun reforçou o plano de múltiplas rotas tecnológicas, mas com foco local: “Acreditamos em todas as tecnologias, teremos elétrico no Brasil, mas entendemos que o carro flex continua sendo central”.
Segurança e conectividade também são tendência
Além da eletrificação os executivos destacaram outras megatendências que devem moldar o setor. Para Plöger segurança e conectividade serão determinantes: “A segurança ativa crescerá muito, com tecnologias que minimizam acidentes chegando aos carros de entrada. E, sem dúvida, a conectividade: ninguém consegue viver sem smartphone, os carros serão integrados”.
Braun lembrou a ampliação do ecossistema automotivo: “Conectividade, compartilhamento de veículos, direção assistida e eletrificação estarão cada vez mais integradas aos produtos”.