Atrito Leste-Oeste chega ao setor automotivo

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CompartilheComércio Exterior
11/04/2018

As tensões envolvendo Estados Unidos e China no comércio exterior ganharam mais um capítulo. O presidente estadunidense foi às redes sociais criticar as tarifas impostas aos veículos exportados à China, movimento que configura a primeira menção ao setor automotivo na encrenca que teve início em discussões sobre o aço. O presidente julgou as tarifas praticadas hoje como "desiguais e nocivas ao livre-comércio".

 

Ainda que não seja algo formal o mercado interpretou a mensagem [reprodução abaixo] como aviso das intenções do atual governo dos Estados Unidos porque foi a primeira vez que o presidente explicitou publicamente suas opiniões. Em sua publicação na internet ele apontou que o automóvel estadunidense é taxado em 25% pela China ao passo que, na mão inversa, o carro chinês é submetido a uma alíquota de 2,5%.

 

As atuais regulamentações comerciais dos Estados Unidos indicam que um país com o qual não mantém acordo comercial pagará 2,5% de imposto de importação para veículos de passageiros e 25% para caminhões leves e veículos comerciais. O governo do país, diante do quadro, deverá promover alterações na alíquota de forma a encarecer a importação de veículos.

 

BARREIRAS - Antes de ir a público o governo já começou a trabalhar para beneficiar os veículos produzidos no mercado interno. Os Estados Unidos iniciaram recentemente o processo de reverter os padrões de economia de combustível do governo anterior, afrouxando a corda dos requisitos de economia de combustível de qualquer fabricante, exceto para os veículos importados.

 

Com isso a administração aumenta o custo das fabricantes estrangeiras que precisam cumprir com os padrões de eficiência energética para entrar no mercado dos Estados Unidos. Isso pode efetivamente aumentar o preço dos veículos importados e impulsionar as vendas de carros domésticos, que têm o potencial de se tornar mais acessíveis devido à diminuição das restrições regulatórias.

 

Esse incentivo em particular é útil às empresas cujos veículos são fabricados nos Estados Unidos, independente de onde estejam localizadas as matrizes: os veículos nacionais tornam-se isentos de regulamentos mais rigorosos, criando uma política de incentivo para os fabricantes construírem carros no país, assim como aconteceu no Brasil anos atrás com o Inovar-Auto.

 

REFLEXOS - De acordo com Antônio Jorge Martins, professor da FGV no curso de especialização em cadeia automotiva, a restrição ao carro chinês nos Estados Unidos poderá intensificar a busca da China por novos mercados:

 

“As restrições ao seu produto levarão a China a fazer tentativas de deslocar o volume que ia aos Estados Unidos a outros mercados, sobretudo países onde ainda não tem operação sólida. Dificilmente tentará fazer com que seu mercado interno absorva esse volume”.

 

Não é o caso do Brasil, ele afirmou. Isso porque o País conta com fabricantes chinesas instaladas aqui, como é o caso da Caoa Chery e, ainda em tratativas, a JAC Motors: “Existe o estímulo do governo chinês para que as empresas invistam em internacionalização. Com a saída de um mercado grande, como é o caso dos Estados Unidos, a tendência é a de que a pressão aumente sobre as fabricantes”.

 

Em 2017 os veículos representaram a quarta maior importação em volume na balança comercial dos Estados Unidos. Foram US$ 359 bilhões despendidos na compra de automóveis, caminhões, ônibus e componentes. Os veículos chineses representaram US$ 1 bilhão 575 milhões 904 mil do total, no ano passado, segundo dados oficiais do governo dos Estados Unidos. Noção de grandeza da evolução das importações de veículos chineses?: em 2011 as importações de carros da China, em valor, atingiram US$ 22 milhões.

 

Nos Estados Unidos, no entanto, isso pode representar outros problemas ainda que ocorra uma aparente proteção do governo ao mercado interno, disse Martins: “Muitas fabricantes que estão atualmente na vanguarda do desenvolvimento dos veículos elétricos observam no mercado estadunidense oportunidades da eletrificação se massificar”.

 

As restrições impostas pela atual administração aos veículos importados pode emperrar o desenvolvimento. Outra questão: empresas que importam aço para construir carros no país também serão oneradas por causa das barreiras ao insumo estrangeiro, o que pode implicar elevação do custo dos carros produzidos localmente.

 

Foto: Divulgação.