Autopeças conta com alta, mas teme abertura de mercado

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25/06/2019

São Paulo – O setor de autopeças passa por desafios e um dos principais é a busca pela competitividade, e não apenas a busca da projeção. Assim definiu Flávio Del Soldato, diretor do Sindipeças, no Seminário AutoData Revisão de Perspectivas 2019, na terça-feira, 25, no Milenium Centro de Convenções, em São Paulo, SP.

 

O faturamento do setor em reais tem perspectiva de atingir R$ 106,5 bilhões em 2019, mas em dólares saiu dos R$ 40 bilhões para, depois de seis anos, chegar a US$ 28 bilhões. Segundo Del Soldato o último superávit da balança comercial foi em 2005 – de lá para cá houve apenas déficits.

 

Quando se fala de revisão de projeções, Soldato trabalha com um estudo que é a soma das expectativas das montadoras. Dessa forma, a conta chega a um crescimento de produção de 3% este ano, atingindo 2,977 milhões de unidades. Para 2020, a perspectiva é de 3,114 milhões, alta de 4,6%. Com aumentos sucessivos, o cálculo do Sindipeças é chegar a 2024 com volume de 3,708 milhões de unidades produzidas. “Onze anos depois retornamos ao patamar”.

 

Enquanto o faturamento segue em recuperação de dois dígitos, o setor de autopeças ainda enfrenta problemas de câmbio e a derrocada argentina que impactou na produção. Mas as vendas no mercado interno seguem com alta de 7 a 8%. “O setor aguarda novidades [reformas] em zona de conforto. A produção não vai melhorar no curto prazo e pode piorar, porque a base é alta. Se falamos de competitividade, não será possível sustentar esse gigante, que é o setor automotivo, com pés de barro. Precisamos que todo o setor de autopeças cresça junto. A seleção vai ser natural. Não cabem todos. Mas é interesse de todos que o setor progrida e estabeleça condições para ter pés de aço”.

 

As expectativas da Eaton são conservadoras. Com foco no mercado de reposição, conquista de novos mercados e exportações na casa de 20%, o presidente Antônio Carlos Galvão planeja um ano de dois dígitos de alta, enquanto a reforma tributária não gerar resultados.

 

Já a Bosch diz que a perspectiva é “andar de lado” tanto Brasil quanto Argentina, onde a empresa atua. A projeção para 2020 ainda com expectativa da aprovação das reformas é crescer 3%, segundo o presidente Besaliel Botelho.

 

“Estamos sendo conservadores. A transformação lá de fora vai acontecer aqui também, por isso estamos preparados para enfrentar novos investimentos com balança comercial de 30% de exportações. Conseguimos manter os 8,5 mil empregos mesmo com transformações. Continuamos numa boa base para enfrentar a abertura de mercado, precisamos nos preparar para importar mais, isso vai ser rápido e não teremos condições de fazer mais investimentos. Vamos nos preparar para modelos de importação mais inteligentes. A Anfavea tem que atuar junto ao Sindipeças para essa projeção tecnológica do futuro”, afirmou Botelho. “Temos de nos unir para localizar, senão teremos de importar tecnologia.”

 

O presidente da Bosch avalia o cenário no qual a produção mundial deva cair 3%, o que é diferente das expectativas que existem da região. “Ao falar de acordos bilaterais, vamos liberar o mercado para competidores muito interessados em nosso mercado, o que deixa a competitividade mais forte”.

 

Agenda da competitividade – Para Galvão, da Eaton, três fatores forçam a urgência pela maior competitividade. O primeiro é a perda em dez anos e a alta capacidade ociosa. O segundo fator é que, por causa das plataformas globais, os países de origem conseguiram maior escala e o Brasil ficou para trás. E, por fim, a agenda de livre comércio que precisa ser vista com cautela.

 

Para o presidente da Bosch, a saída para muitas empresas sobreviverem será formar parcerias. “Os volumes começam a voltar e precisamos compactar mais volumes e não pulverizar. Vejo desafio de alta exposição ao câmbio e precisamos exportar”.

 

O Sindipeças defende uma agenda de integração, a partir de acordos comerciais, processos horizontais nos setores e de forma gradual. Dos acordos comerciais, a entidade espera os resultados com a União Europeia, que pode sair muito em breve.

 

“Se fizermos um acordo com a Europa esse modelo vai repercutir com outros acordos com Japão, Coreia do Sul, Canadá, no livre comércio de autopeças”.

 

Galvão, da Eaton, defende a eletrificação, mas tem dificuldade em colocar o Brasil nesse mapa. “O que me preocupa é a velocidade do livre comércio ser maior do que a velocidade da agenda competitiva.”

 

Foto: Christian Castanho.