São Paulo – Há poucos dias a Arteb encerrou um dos mais duros capítulos de sua história de quase nove décadas, que se arrastou por sete anos: o processo de recuperação judicial agora é página virada. A empresa brasileira fabricante de sistemas de iluminação está reestruturando sua operação, diversificando clientes e recontratando. O efetivo da planta de São Bernardo do Campo, SP, já se aproxima de 1 mil profissionais novamente – mesmo patamar de 2016, quando iniciou movimento de queda livre que enxugou o volume em 60%.
Como uma fênix este renascimento, que deu seus primeiros passos ainda durante a pandemia, foi ancorado em dois pilares. Um deles foi a aposta no mercado de reposição. Se antes da covid apenas 7% dos produtos da Arteb tinham como destino o aftemarket hoje este porcentual cresceu para quase 20% pois a empresa aproveitou a onda do expressivo aumento da demanda por peças em meio à crise econômica que elevou os juros, dificultou o acesso ao crédito e reduziu a busca por veículos 0 KM.
Outro ponto, conforme afirmou à Agência AutoData o gerente comercial e de marketing da Arteb, Gustavo Souza, foi o ritmo mais acelerado de lançamentos imprimido pelo mercado de 0 KM, até como forma de tentar driblar a velocidade mais lenta das vendas nesse cenário.
“Fomos beneficiados porque nosso produto ganhou valor agregado. Faróis e lanternas conquistaram papel de maior destaque no design dos veículos. Sem falar que hoje os modelos têm muito mais eletrônica, com iluminação no painel e na porta, o que contribui com o nosso negócio.”
Esse contexto se deu ao mesmo tempo em que a Arteb passou a conquistar mais projetos. Dentre as recentes conquistas destacam-se o Citroën C3 Aircross e a Volkswagen Saveiro e a Ford Ranger na Argentina. E a fornecedora está em mais dois lançamentos previstos para o ano que vem, ainda sob sigilo.
O alento veio depois de período de fortes dificuldades enfrentadas pela Arteb que, de acordo com o executivo, lutou “bravamente” para superá-las: “O setor teve expressivo crescimento de 2008 a 2013 e começou a ser vislumbrada capacidade de produção de até 5 milhões de veículos, o que motivou investimentos na cadeia fornecedora a fim de acompanhar essa projeção. Só que esta ampliação nunca se concretizou, passamos a andar de lado e, ao mesmo tempo, tivemos de lidar com enxurrada de importações”.
Para agravar a situação, desfavorecida pelo período de recessão econômica de 2015 e 2016, um dos principais clientes da Arteb, a Ford, decidiu encerrar sua produção no Brasil: “Foi um golpe muito duro”.
Souza atribuiu a conjunto de ações o renascimento da companhia, que passou pelo redesenho da área comercial, mudanças no processo produtivo para minimizar custos, reforço do eixo aftermarket, que inclui reposição da linha pesada, e melhora da competitividade.
Com produção bastante verticalizada e índice de nacionalização em torno de 70% a empresa também passou a desenvolver toda a parte de eletrônica por meio da Arteb Tech, estabelecida em fábrica instalada no mesmo espaço em que são produzidos os itens de iluminação no ABC Paulista.
“Nesse processo de reestruturação tivemos de enxugar custos e reduzir o efetivo primeiro, para só então voltar a crescer. Conseguimos inverter o espiral nesse pós-pandemia e estamos operando em dois turnos, sendo que o terceiro poderá ser acionado a qualquer momento.”
Com capacidade de produção de 3,5 milhões de unidades por ano as projeções são de crescimento de dois dígitos tanto em 2023 como em 2024, quando a aposta está em incremento de 15% a 20% no faturamento.
Souza ponderou, entretanto, que a empresa não possui, ainda, situação financeira confortável, e que o sucesso no setor demanda bastante investimento: “Para os próximos anos planejamos voltar a investir a fim de modernizar o parque fabril e de aumentar a contratação de mão de obra. E, assim, conquistar maior participação nas montadoras e seguir expandindo no aftermarket”.
Quanto às exportações o volume ainda é pequeno, no caso de OEM é feito por meio de montadoras no Brasil, caso da Ford, que adquire aqui as peças e as envia para sua operação na Argentina – que também é o principal destino, somado a países da América do Sul e América Central, para o segmento de reposição, que tem 6% de sua produção embarcada.
Souza ressaltou o cenário conturbado na Argentina, que passa por restrições quanto à saída de dólares, o que impossibilita o envio de produtos nas quantidades demandadas ou provoca dificuldades para o pagamento aos fornecedores: “Esperamos que com o novo governo a situação melhore”.
O executivo citou ainda que a companhia está retomando avanços na área de ESG e que o seu programa de inclusão, o Formando, dedicado a jovens com renda familiar de até R$ 2 mil, foi retomado. A décima turma terá dezoito jovens em 2024, com possibilidade de efetivação.
Fundada em 1934 por Arthur Eberhardt a Arteb iniciou suas operações na Vila Mariana, em São Paulo, e em 1967 transferiu suas atividades para São Bernardo, onde se especializou na produção de sistemas de iluminação como faróis, lanternas e brake lights. A família Eberhardt ainda é a detentora de 100% do capital da companhia, com a segunda geração à frente do negócio.