A velocidade da descarbonização das operações comerciais na China aumentou desde 2020 e pode atropelar a indústria ocidental de caminhões, ônibus e vans
Pequim, China – Trafegam por cidades e estradas chinesas algo como 35 milhões de caminhões e ônibus de todos os tamanhos e aplicações. É a maior frota do mundo que, até 2020, foi movida quase que exclusivamente a diesel. Mas a transição, que começou devagar, agora acelera para a descarbonização, reduzindo drasticamente a dependência do combustível fóssil importado.
A participação dos veículos comerciais novos a diesel caiu para menos de 50% nos últimos dois anos e os descarbonizados vêm se destacando em aplicações dedicadas, como Jack Wey, chairman da GWM, esclareceu à reportagem da Agência AutoData. “A eletrificação dos veículos comerciais está sendo feita em quase todos os segmentos”.
Jack Wey, chairman da GWM
A China também é o maior mercado do mundo e em 2025 foram comercializados quase 4,3 milhões de veículos comerciais novos, incluindo caminhões e ônibus. O resultado é 10,9% melhor do que o de 2024 e a mudança no mix reflete a transição. A associação dos fabricantes de veículos da China informou que as composições movidas a gás natural representaram 29% das vendas e as eletrificadas 22%. As projeções para este ano é que somente os veículos comerciais eletrificados atinjam 60% de participação no total das vendas.
A velocidade desta transição passa pelo custo total de propriedade e operação, que segundo estudos já está de 10% a 26% menor do que um produto similar movido a diesel. Há também um programa do governo que incentiva a troca do caminhão usado por um novo e elétrico oferecendo subsídio de US$ 19 mil aos interessados.
A produção na China é de algo como 1,4 milhão de unidades ao ano e vêm crescendo as iniciativas para aumentar este volume. Não à toa Jack Wey mantém negócios em toda a cadeia de novas tecnologias para a descarbonização do transporte. Executivos chineses com mais contato com o dono da GWM contam que ele tem apreço especial pela FTXT, sua divisão que desenvolve e produz soluções para a mobilização baseado no hidrogênio.
O próximo passo
Em Baoding, a cidade sede da Great Wall Motor, no imenso complexo que produz picapes, SUVs e modelos de luxo, dentre outras atividades que não pudemos ver, há uma fábrica exclusivamente dedicada ao desenvolvimento e à produção de tudo o que está relacionado à utilização de hidrogênio como matriz energética. A FTXT está firmemente dando o próximo passo da descarbonização, no caso não apenas para veículos comerciais mas também para barcos, navios, geradores estacionários e até aviões movidos a hidrogênio.
Ônibus da frota regular da fábrica movido a hidrogênio
São produzidos tanques que utilizam materiais de última geração, fabricados com precisão milimétrica para suportar as mais altas pressões, temperaturas e com capacidades das mais diversas. Também produzem não apenas a membrana, o item crucial para a reação química do processo, mas os outros componentes da célula de combustível, assim como todos os item acessórios, além do seu intricado sistema operacional.
O abastecimento é feito na própria fábrica da FTXT
Já são mais de 2,3 mil sistemas de propulsão a hidrogênio da FTXT operando na China com mais de vinte modelos de veículos comerciais certificados para utilizarem esta tecnologia. A empresa informa também que já acumulou mais de 42 milhões de quilômetros rodados com sistemas de propulsão a hidrogênio e que esse pequeno passo contribuiu com a redução de mais de 40 toneladas de CO2e emitidos.
Durante a visita a este complexo a reportagem conheceu não apenas vários testes realizados em bancada com os sistemas de propulsão a hidrogênio, como o monitoramento em tempo real de todos os veículos comerciais com a tecnologia FTXT em operação na China.
Diversos tipos de tanques produzidos na fábrica da FTXT
Transição
Entretanto Jack Wey não pôs todos os ovos numa mesma cesta, assim como faz com os veículos de passeio, alguns oferecidos com motores a combustão, outros híbridos ou 100% elétricos. As aplicações específicas, de acordo com a natureza da operação, têm avançado no caminho da eletrificação, de acordo com o executivo: “Estamos abordando cada segmento com a oferta de diferentes tecnologias”.
Há forte investimentos em algumas aplicações específicas. Nos portos chineses quase 100% dos caminhões utilizados no transporte internos são elétricos: “Dependendo do tamanho da carga e da distância percorrida diariamente, conseguimos dimensionar melhor o produto, como o tamanho e a capacidade da bateria utilizada nessas operações”.
Acompanhamento em tempo real dos caminhões com célula de combustível FTXT em operação no território chinês
Nos portos Wey disse que algumas empresas já começaram a fazer troca rápida de baterias dos caminhões, outra forma de tornar a operação ainda mais eficiente: “No circuito fechado sabemos qual a distância percorrida todos os dias. Assim, já existem rede de carregadores rápidos para atender as necessidades dessas operações”.
Outro segmento importante é o de mineração. Para estas aplicações Wey citou os bons exemplos de como utilizar o recarregamento das baterias com os veículos em movimento. Quando esses caminhões descem carregados por estradas íngremes a recuperação de energia entra em ação, aumentando a autonomia destes produtos.
Célula de combustível produzida pela FTXT
Para operações de longa distância a GWM acredita numa tecnologia híbrida diesel, “a que oferecemos a nossos clientes na China”. O executivo contou que em percursos planos, o que é comum na China, obtém-se economia de 15% de combustível para composições extrapesadas. “E nos trechos com aclives e declives utilizamos o sistema de recuperação de energia, que para estes caminhões mais pesados funcionam muito bem, obtendo até 30% de economia no consumo de diesel”.
Tudo isto está avançando muito rapidamente, e tem descarbonizado parte importante da frota de veículos comerciais. Um segmento que começou recentemente uma ofensiva foi o do transporte last mile: “Caminhões de pequeno e médio portes e vans estão utilizando powertrain elétrico, com a grande oferta de estações de carregamento em todo o país”.
Não se trata apenas de oferecer automóveis para o consumidor final. As oportunidades são imensas em todos os segmentos, e a velocidade e capacidade produtiva e de pesquisa e desenvolvimento da China estão sendo utilizadas a pleno vapor, ou melhor, à toda energia.