JR Nasser é mais conhecimento que se vai

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Não fomos desses amigos de cinquenta anos. Conhecemo-nos quando eu já militava profissionalmente na revista Quatro Rodas, por volta de 1985. Mas estreitamos as relações logo, quando passei a trabalhar na Anfavea, de 1987 a 1990, e com a criação da AutoData Editora, desde 1992. Participamos juntos de muitas alegres caravanas mundo afora, e de algumas programações exclusivíssimas, daquelas para poucos. Trocamos muito conhecimento, nos divertimos juntos. Mas José Roberto Nasser nunca foi uma unanimidade, virtude que não perseguia.

 

Dono de opiniões fortes num mundo cinzento de ideias quando existiam cansou de causar problemas para seus anfitriões. Roberto Luiz Bógus, como diretor de vendas da Fiat, foi uma de suas vítimas quase prediletas: tentava responder às provocações e sempre se saía mal. E é clássica a intervenção de Zé Roberto durante a convenção de lançamento do Verona, um híbrido com logo Ford da época Autolatina: “Pra mim Verona é nome de sapatão!”.

 

Mas nem sempre era assim. Em novembro de 2002 fomos a Wolfsburg conhecer a novíssima Autostadt, na companhia de Boris Feldman e de Fernando Calmon sob a liderança do saudoso Serginho Ayarroio. Com direito a Ritz Carlton e a uma visita guiada pelos porões da fábrica pioneira da companhia – ali, onde ficavam presos os trabalhadores forçados durante os raides aéreos dos aliados no fim da Segunda Guerra. Um ambiente atro.

 

Em seguida fomos recebidos pelo diretor de relações públicas da fábrica e, durante bons 15 minutos, ficamos eletrizados com a troca de ideias do Zé com o diretor: Zé voltou a história para 1945 e para os resultados de Bretton Woods na reconstrução de uma Alemanha arrasada para, digamos, ver a nossa presença ali naquele momento.

 

Foi na volta de Wolfsburg para Frankfurt que percebi o início da decadência física do Zé Roberto, com os olhos lhe pregando peças e o esqueleto não respondendo como antigamente. Varou as dificuldades com a obstinação e a disciplina de velhos levantinos.

 

Zé Roberto também deu lá as suas mancadas – que no seu caso alçavam-se em dimensões algébricas apenas por ser ele o cara que fez a bobagem. Como durante o almoço num certo dia de julho de 1998, no novíssimo centro de tecnologia da Renault, fora de Paris. O presidente da operação brasileira, Pierre Poupel, nos acompanhava, assim como a diretora Marinete Veloso. Acomodávamo-nos à mesa, e conosco estava uma das filhas de Poupel, e Zé Roberto, cardápio na mão e sem muita inspiração, não sabia o que escolher. Alguém disse: “Ah! No caso de dúvida sempre escolho frango”. O Zé responde: “O único bicho que avoa que como é aeromoça”. Risada geral – a filha de Poupel era comissária de bordo da Air France e ele ficou co’a cara no chão, parvo, sem reação.

 

Nem sempre José Roberto Nasser cobriu as suas atividades com o necessário manto da transparência, principalmente no trato de clientes do setor automotivo que recorriam à sua condição de advogado e de funcionário do alto escalão do Senado – e onde tudo ia embricar, sempre?: nas suas tarefas de jornalista. Ele atuou em algumas circunstâncias críticas, é verdade, saiu escaldado de algumas delas mas, principalmente, manteve o respeito de todos.

 

Na quarta-feira, 7, caminhamos com vagar aqueles corredores infindáveis do Salão do Automóvel. Declarou-se triste com alguns aspectos recentes de sua vida particular e declarou-se imensamente feliz com outros aspectos ainda mais recentes de sua vida particular. E eternamente infeliz com o anda-e-não-sai-do-lugar do Museu do Automóvel de Brasília – que na quinta-feira, 8, foi autorizado a permanecer no grande galpão que ocupa depois de seis anos de briga com o Ministério dos Transportes.