Cadeia de fornecedores preocupa sistemistas

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CompartilheCongresso AutoData 2018
10/10/2017

O papel do governo é tema recorrente quando se discute o universo das autopeças brasileiras. O setor foi um dos que mais sofreu com a queda dos volumes provocada pela desaceleração do mercado de veículos. Sistemistas e toda a cadeia de fornecimento reclamam da falta de políticas públicas para a modernizar o segmento. Nem o Rota 2030, programa que definirá as regras do jogo para os próximos anos, vislumbra uma solução para os problemas enfrentados pelas empresas. Na esfera fiscal, defendem que o estado crie programa de refinanciamento de dívidas específico para o setor para que as empresas possam ganhar fôlego e, assim, manter a produção.


A queda nas vendas no mercado de automóveis e no de veículos pesados provocou mudanças importantes na estrutura das empresas de autopeças. Grosso modo, as que não sufocaram em débitos e fecharam as portas precisaram iniciar um processo de redução de capacidade produtiva. Se o estado mantiver o setor fora da pauta, executivos acreditam que haverá poucas mudanças no cenário em 2018.


Besaliel Botelho, presidente da Bosch do Brasil, disse na terça-feira, 10, durante o Congresso AutoData Perspectivas 2018, em São Paulo, que faltam interlocutores em Brasília para as questões ligadas à sobrevivência das autopeças: “Foram três anos difíceis, mas antes a cadeia já estava totalmente abandonada pelas políticas de financiamento para resolver dividas”.


Botelho, que também ocupa cargo no Sindipeças, revelou que foram feitas propostas ao governo para facilitar a vida da cadeia. Sem sucesso. Ainda que o sindicato tenha feito parte dos grupos que discutiram a nova política industrial, o Rota 2030, o executivo acredita que o programa constitui mais uma vontade das empresas do que anseios do País, uma vez que setores ligados ao setor político, como os ministérios da Fazenda e de Minas e Energia, não foram ouvidos para a construção de um marco para o setor automotivo.


“O Inovar-Auto não tinha foco na cadeia, mas nas montadoras. Pensamos que o programa traria localização e volume, mas o que houve foi uma ruptura do mercado. Por isso encaramos a realidade e alguns ficaram na praia, fecharam as portas”, afirma Botelho. Ele teme que, mantidas as dificuldades que considera impeditivas ao crescimento do setor, os grandes sistemistas se depararão em 2018 com a possibilidade de importar componentes: “Se o volume aumentar repentinamente, como minha cadeia vai se comportar? Importar ou nacionalizar será um tema a ser discutido”.


Amaury Rossi, diretor de negócios da Eaton, também vê com preocupação a saúde da cadeia de fornecedores caso o mercado voltar a crescer: “O volume no nosso segmento move montanhas. Com a crise todos os pequenos fizeram a lição de casa e cortaram na carne e no osso para sobreviverem”. Rossi conta que a empresa monitora de perto seus 29 fornecedores. Muitos precisaram da nossa ajuda para seguirem no mercado. Tivemos de comprar matéria-prima, por exemplo”.


Uma ferramenta vista como fundamental para auxílio às autopeças, segundo os representantes das sistemistas, é a formulação de um programa federal de parcelamento de dívidas, o Refis. A medida foi usada pelo governo federal para aliviar a pressão fiscal sobre estados da federação que possuíam déficit fiscal alto. A ideia do segmento de autopeças é que o setor entre também na rota do programa, já que muitas empresas não possuem margem para arcar com débitos de origem fiscal e manter fluxo de caixa para manterem a produção:


“Precisamos de um Refis, sem dúvida. Precisamos de alguma forma por meio da qual a empresa possa sair das dívidas que a impedem de se alavancar. Tem que ter uma visão do governo. Pode ser por meio do Refis ou de outro tipo de suporte. Falta clareza de como o governo quer o setor no futuro. Queremos a modernização? Indústria 4.0? Precisa de alavancagem. Com o peso de divida de imposto fica difícil”, disse Botelho.

 

Foto: Maurício de Paiva