Mercado ainda espera o efeito dos juros baixos

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São Paulo, SP – O mercado financeiro projetou na segunda-feira, 29, queda da taxa Selic dos atuais 6,5% para 5,5% até dezembro, porcentual que representa seu menor patamar histórico e que deverá perdurar até 2020. Em teoria a notícia deveria animar o setor automotivo, no qual se repetiu como mantra, sobretudo no primeiro semestre, que mais automóveis seriam vendidos no País em função da queda da taxa de juros - que promoveria parcelas menores nos financiamentos e animaria, assim, os consumidores a saírem às compras.

 

Não foi bem assim. Na prática o que se viu, nos primeiros seis meses do ano, foram volumes maiores na comparação com idêntico semestre do ano passado gerados, basicamente por causa das vendas diretas aos frotistas e da realização de promoções agressivas nas concessionárias, segundo consultores ouvidos pela Agência AutoData. Há também outro fator: com a crise na Argentina as montadoras e suas redes de revendedores tiveram de criar meios comerciais criativos para escoar uma produção que tinha lá como destino, a princípio.

 

“A queda da taxa de juros influencia diretamente na compra de veículos, mas a taxa de juros dos bancos de varejo, no primeiro semestre e já há algum tempo, não caíram com a mesma intensidade, e elas têm um peso importante na aquisição de novos veículos. O crescimento registrado se deu em função de promoções e vendas diretas”, disse Roberto Barros, consultor da IHS Automotive. “O cenário macroeconômico ainda não animou os bancos o suficiente para que eles promovam diminuição dos juros, que poderá ocorrer após a execução das reformas.”

 

Segundo relatório do Banco Central sobre taxas de juros para aquisição de veículos para pessoa física até junho a variação do juro praticado pelos bancos de varejo e das montadoras ficou compreendida de 10% a 60% ao ano. Para o consultor as reformas poderão provocar um clima maior de confiança nas instituições financeiras, refletindo em juros menores, algo de 16% a 17%: “Se chegar a esse patamar poderemos ver reflexos diretos nas vendas de automóveis”.

 

Já a taxa Selic vem sendo reduzida pelo Banco Central de forma acentuada desde outubro de 2016: caiu de 14,25% para 6,5% em abril, um nível que se mantém.

 

Para Rodrigo Nishida, especialista no setor automotivo da LCA Consultores, o cenário de vendas de automóveis calcadas na modalidade direta será mantido no segundo semestre. No entanto a proposta de saque do FGTS, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, feita pelo governo poderá significar vendas maiores no segundo semestre: “A proposta de saque de recursos do fundo no dia do aniversário do contribuinte poderá produzir reflexo interessante nas vendas de automóveis”.

 

Medidas como a proposta pelo governo, referente ao FGTS, melhoram o ambiente de negócios, disse Antônio Jorge Martins, coordenador do curso de gestão automotiva da FGV, a Fundação Getúlio Vargas, pois existe, de fato, demanda reprimida por automóveis, que deverá ser atendida com aumento da confiança do consumidor diante do atual cenário: “Como houve desestímulo nos últimos tempos, e redução do mercado, é natural que o consumidor pessoa física tenha recuado. Mas o mercado sempre se reduz pontualmente, porque o desejo de comprar não é eliminado e, sim, postergado até que a economia volte a proporcionar confiança”.

 

Em janeiro a expectativa da Fenabrave era a de que a oferta de crédito e a baixa taxa de juros puxassem as vendas do setor até um crescimento de dois dígitos no ano. Em julho, no entanto, a entidade divulgou revisão dos números para o segmento de automóveis: recuo de 10,3% para 7,4% de crescimento. A Anfavea, por sua vez, espera que o crescimento neste mercado, no ano, seja de 11,3%, mas a entidade deverá rever os seus número ao longo do segundo semestre.

 

As vendas de veículos leves, de acordo com o último balanço da Anfavea, encerraram o semestre com 1 milhão 251 mil 772 unidades, alta de 12% ante igual período no ano passado. Os financiamentos de automóveis novos, no mesmo período, chegaram a 635 mil 310 unidades, o que representa alta de 5,3% sobre os financiamentos realizados no janeiro-junho de 2018.

 

A participação das vendas diretas nos licenciamentos de automóveis e comerciais leves realizados no primeiro semestre chegou a 45%, porcentual que representa fatia recorde no mercado nacional: nunca, em toda a história, as vendas diretas chegaram tão perto de representar a metade do volume total do período. O índice incomodou a Fenabrave, que considerou o cenário atual insalubre ao principal negócio das concessionárias.

 

Foto: Divulgação.