Sócio da Mirow & Co apontou vantagens competitivas do Brasil durante o Congresso AutoData Megatendências 2026, mas alertou para necessidade de preparação da indústria
São Paulo — O acordo do Mercosul com a União Europeia tende a gerar impactos mais graduais do que disruptivos sobre a indústria automotiva brasileira, com oportunidades concentradas principalmente em exportações e cadeias globais de valor. A avaliação foi feita por Michael Münch, sócio da Mirow & Co, durante o Congresso AutoData Megatendências 2026.
Após 26 anos de negociações o acordo entra agora em fase de adoção, embora ainda existam incertezas operacionais: “Nós já passamos as discussões políticas e estamos indo para a fase de implementação. Mas ainda temos algum risco residual de o Parlamento Europeu e a Corte de Justiça poderem voltar atrás”.
Na prática, porém, os benefícios não devem ser imediatos: “No dia 1º de maio eu já posso gozar de tarifas reduzidas? Talvez ainda não. Estão faltando implementações administrativas dos dois lados”.
Combustão perde espaço, elétricos avançam com cautela
Münch destacou que o impacto será diferente conforme o tipo de tecnologia. Para veículos a combustão a relevância do acordo tende a ser limitada: “Nos próximos seis anos nada mudará neste segmento. As taxas serão 35%, como estão hoje. Depois disto a Europa já estará em fase de saída do motor a combustão. Então a janela é muito curta”.
Já para veículos elétricos haverá redução tarifária mais rápida e vantagem para produtos europeus. Ainda assim o efeito tende a ser contido. “Mesmo com esta vantagem, o carro elétrico importado ainda custará de 30% a 40% a mais do que na Europa. Isso me deixa bastante confiante de que não haverá avalanche de importações”.
Segundo ele a produção local seguirá relevante “e a localização continuará a ter papel muito importante”.
Brasil ganha força em novo cenário global
Para Münch o maior potencial do acordo está no reposicionamento do Brasil nas cadeias globais, especialmente diante das mudanças geopolíticas. Para ele está mudando “o setup dos fluxos globais e o Brasil está muito bem posicionado”.
Ele citou quatro fatores principais: estabilidade geopolítica, matriz energética limpa, menor dependência de importações de energia e custos competitivos.
Michael Münch, sócio da Mirow & Co. Fotos: Bruna Nishihata.
“Nós temos sol, vento e hidrelétrica. O esforço que eu preciso fazer na Alemanha para ter a mesma quantidade de energia limpa é muito maior.”
Esta característica ganha peso diante da pressão europeia por descarbonização pois ter matriz com baixa pegada de carbono ficará cada vez mais importante para a indústria europeia.
Oportunidade existe, mas exige estratégia
Apesar do cenário favorável Michael Münch ressaltou que os ganhos não serão automáticos: “Temos uma oportunidade real mas precisamos fazer o dever de casa. Isso não acontece sozinho. Mais: não devemos competir apenas por preço, não podemos cair na armadilha de seguir uma estratégia de commodity. Nesta briga perderemos”.
O caminho, segundo ele, é apostar em nichos de maior valor agregado, focar em segmentos nos quais a baixa pegada de carbono agrega valor. Também será essencial atender às exigências regulatórias europeias:
“Não é simplesmente esperar o acordo. Tem que se preparar com regras de origem, comprovar conteúdo local, atender a requisitos de descarbonização”.
Exportações devem ser principal vetor
Na visão do consultor o acordo tende a ampliar a participação do Brasil no comércio global automotivo e o País pode ocupar uma parte maior dentro do negócio global do que ocupa hoje. Ele também minimizou riscos de desindustrialização.
“Não acontecerá. A redução de tarifas é gradual e dá tempo para todo mundo se ajustar.”
Michael Münch destacou o potencial do País em tecnologias alternativas. “Nós temos na mão a oportunidade de nos tornarmos líderes em tecnologias de baixo carbono e biocombustíveis e temos que aproveitar o fato de sermos um gigante verde a nosso favor”.