Para Dan Ioschpe, no Congresso Megatendências, nenhum país de grande porte chegou ao desenvolvimento sem uma indústria automotiva forte e integrada globalmente
São Paulo – A indústria brasileira paga três vezes mais impostos do que os outros setores em proporção ao PIB, opera com uma das maiores taxas de juros do mundo e ainda compete sem as condições isonômicas que países como China e Estados Unidos garantem às suas montadoras. Para Dan Ioschpe, vice-presidente da Fiesp, este cenário é uma ameaça direta ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil.
A avaliação foi feita durante o Congresso Megatendências 2026, realizado por AutoData, em São Paulo, na segunda-feira, 6, no qual o executivo propôs que fortalecer a indústria, em especial o setor automotivo, é condição inegociável para o crescimento sustentável do País: “Para acelerar o desenvolvimento socioeconômico sustentável, precisamos fazer crescer a atividade industrial”.
O raciocínio foi construído sobre seis pilares. O primeiro é fiscal: a indústria arrecada cerca de três vezes mais impostos em proporção ao PIB do que os demais setores, sendo coluna vertebral da receita do Estado. Depois o humano: é no setor industrial que estão os melhores salários, as melhores condições de trabalho e as relações sindicais mais desenvolvidas.
Dan Ioschpe, vice-presidente da Fiesp. Fotos: Bruna Nishihata.
O terceiro pilar é tecnológico. A indústria é o maior investidor em inovação do País, com cadeias de valor longas que geram avanços desde as matérias-primas até o relacionamento com clientes. O quarto é a integração dos setores da agricultura, mineração, construção civil e infraestrutura, que dependem da indústria, algo que os outros setores não conseguem replicar.
O quinto é segurança nacional, ilustrado pela pandemia: “Nós acordamos e dissemos: olha, não temos respiradores, não temos máscaras”.
Por fim, o sexto é a integração internacional: 90% das empresas brasileiras internacionalizadas são indústrias.
O nó do custo-Brasil
Ao abordar os obstáculos à competitividade o VP da Fiesp citou que 80% do custo Brasil se concentra em dois fatores: tributação 40% e custo financeiro 40%, metade cada. A reforma tributária em curso caminha na direção certa ao reduzir a sobretaxação da indústria e ao criar um sistema de IVA que devolve créditos na exportação e no investimento, mas seus efeitos plenos só chegam em 2032.
Já para o custo financeiro Ioschpe foi mais pessimista: “Não temos visibilidade de nenhuma resolução estruturada”.
O Brasil, segundo disse, opera com uma das maiores taxas de juros do mundo há anos, o que desestimula investimento e corrói margens, com efeitos que vão de recuperações judiciais à paralisia de projetos de inovação. Ioschpe conectou seu argumento ao setor automotivo, presente em todos os países que atingiram alto grau de desenvolvimento. Citou a China como exemplo mais recente e mais contundente: em cerca de 28 anos o país passou de produção quase nula para maior fabricante e exportador de veículos do mundo.
“Isso contribuiu significativamente para o desenvolvimento socioeconômico daquele país. Não é coincidência.”
Dentre os erros históricos de política industrial Iochpe mencionou que abandonar a produção de semicondutores foi “um erro histórico, quase irreparável”. E alertou que não desenvolver uma indústria de baterias seria erro equivalente, dado o tamanho do mercado brasileiro e sua distância dos grandes centros produtores globais.
Sobre o temor de fornecedores automotivos diante das transformações tecnológicas em curso Iochpe foi enfático: atividades de valor agregado devem continuar sendo realizadas no País e em condições isonômicas.