São Paulo – A pandemia de covid-19 agravou a situação econômica da Argentina, que já não era das melhores. Mas, segundo Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Argentina, os dois maiores problemas não são atuais, mas endêmicos: "Gastamos mais do que arrecadamos, esse é a primeira questão. E a segunda é que a economia demanda mais dólares do que temos disponível".
Servideo palestrou no terceiro dia do 2º Congresso de Negócios da Indústria Automotiva Latino-Americana, organizado pela AutoData Editora na quarta-feira, 2. Para ele os gastos são maiores do que a arrecadação por questões básicas, como o grande número de subsídios oferecidos e o tamanho do Estado, que na sua opinião está inchado e é ineficiente.
No caso dos dólares o problema está no aumento das importações, necessárias para alimentar as linhas de produção de diversos segmentos da indústria, na necessidade da moeda estadunidense para pagamento da dívida externa e na poupança dos argentinos, que é feita em dólar.
Outro fator que dificulta a normalização da demanda por dólar é a reserva que alguns argentinos possuem fora do sistema monetário oficial, estimada em US$ 170 bilhões, metade do PIB nacional, o que afeta diretamente as reservas do Banco Central, que é estimada, atualmente, em US$ 7 bilhões, valor considerado baixo.
Diante desse cenário a expectativa do executivo com relação à economia argentina a partir do ano que vem é de início de recuperação, que dependerá de alguns fatores, como as eleições, que mudarão parte do Congresso, e a reforma da cadeia tributária, que hoje tem 160 impostos. Essas mudanças poderão ajudar o governo a aumentar sua arrecadação, pois não se espera um recuo das despesas.
Outro ponto que poderá ajudar no curto prazo é a dívida privada, que foi renegociada e adiada pelos próximos oito anos, e o começo das conversar com o FMI, também para adiar o pagamento da dívida externa — mas essa negociação ainda não foi definida: "É necessário lembrar que esse adiamento gera dívidas maiores no futuro e que precisarão ser pagas. Em algum momento será necessário pensar em medidas de médio e longo prazo".
Caso as medidas adotadas pelo governo gerem a esperada retomada da economia e da confiança do consumidor no mercado local, a venda de automóveis poderá ser impulsionada por dois fatores: o fato de veículos serem considerados um bem de proteção contra a inflação e a diferença do preço oficial do dólar no país, usado na precificação dos automóveis e o praticado no mercado paralelo, que chega a ser 80% mais alto, diminuindo o custo de aquisição.
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