São Paulo — Passados mais de cinco meses desde o início da pandemia de coronavírus, período que envolveu retração econômica e paralisação da indústria automotiva, as empresas sistemistas afirmam que a demanda por seus produtos voltou com certa força aos mercados da América Latina, algo visto como inesperado. O maior ritmo, dizem, é desempenhado pelo mercado brasileiro, cujas vendas vem aumentando mensalmente desde o fim de junho, quando a maioria das concessionárias voltaram a abrir.
"O comportamento do consumidor está atípico para uma situação como a que vivemos. Tem movimentado as vendas e, claro, a produção de veículos", disse Besaliel Botelho, presidente da Bosch, na tarde da quarta-feira, 2, o terceiro dia do 2º Congresso de Negócios Latino-Americano, realizado pela AutoData Editora. "Ainda que haja certa reduçao no nível de produção ele está se recuperando rapidamente e refletindo na cadeia."
O executivo estendeu a análise com algumas ressalvas ao mercado argentino, atendido pela empresa a partir do Brasil. Para ele o fato de o país vizinho estar buscando meios de renegociar — mais uma vez — sua dívida externa e formas de estimular o controle do câmbio é algo positivo e que fortalece a região vista como bloco econômico.
Para Carlos Delich, presidente da ZF, o mercado argentino ainda é visto como estratégico pelas empresas sistemistas porque muitas das montadoras ainda mantém fabricação local, o que significa, em outras palavras, volume. Seu ponto de vista acerca da recuperação de um mercado que, ao lado de Brasil e México, protagoniza a produção de véiculos na América Latina é de que o ritmo será mais lento por causa do momento econômico pelo qual está passando o país.
"O volume de exportações para a Argentina caiu, mas o fluxo de embarques segue e isso é importante. De toda forma as empresas precisam compreender que o mercado voltou diferente depois que as fábricas retomaram a produção. Teremos todos de conviver com ajustes de produção para atender a uma nova realidade."
Mateus Aquino, presidente da Axalta, disse durante o evento online que a empresa vem monitorando o comportamento do mercado argentino desde 2015, no sentido de aproximar seu planejamento o máximo possível daquilo que oferece. Hoje, após cinco anos, ele considera que a visão da companhia está mais afinada para o que é o mercado argentino, algo volátil, e que atender às demandas argentinas se tornou algo mais assertivo por meio das parcerias locais.
O executivo afirmou que a empresa segue à espera sa retomada da produção local na Argentina: a companhia mantém uma unidade não-produtiva no país que funciona, hoje, como centro logístico.
A Neo Rodas também teve de se moldar frente aos ajustes provocados pelos seus clientes no segmento OEM, segundo seu presidente Alexandre Abage: "Projetamos para o ano uma reduçao de 15% no volume, mas é possível, sim, afirmar que o mercado está voltando. Parte da cadeia de fornecedores não se preparou para este momento de retomada, e isso poderá representar um ponto de atenção".
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