Agência AD Entrevista conversou com o recém eleito novo presidente da Anef em meio às incertezas do IOF e do futuro do crédito automotivo
São Paulo – Desde abril Enilson Sales divide seu tempo pela Anef, associação que representa as instituições financeiras de montadoras, e a Fenauto, federação dos distribuidores de veículos seminovos e usados. A expectativa era a de uma transição tranquila até novembro, quando passará o posto da presidência da Fenauto para seu sucessor, mas uma bomba explodiu em pleno fim de semana: o anúncio do aumento da IOF.
“Boa parte das pessoas já estava fora do escritório”, disse o novo presidente da Anef ao Agência AD Entrevista poucos dias após o anúncio da medida. “Caiu aquele negócio na mesa e precisamos correr atrás, fazer uma reunião com os tributaristas de nossos principais associados para entender o que era aquilo, debater os impactos, preparar material para enviar ao MDIC. Eu diria que essa foi a minha estreia na Anef”.
Por esta razão o que já era difícil, traçar uma perspectiva para o crédito automotivo em 2025, tornou-se ainda mais complicado. Desde a conversa, na terça-feira, 27 de maio, até a publicação desta reportagem muita água correu por debaixo da ponte embora nada tenha ainda sido definido com relação ao IOF – o governo segue estudando o assunto e discutindo novas possibilidades internamente
Pelo menos uma certeza permanece: a Anef passa por uma transformação com a posse do novo presidente. Acompanhe os principais momentos da conversa com o presidente Enilson Sales:
Como foram os primeiros dias na presidência da Anef?
Comecei em abril, mas estou entrando em campo aos poucos. Minha primeira preocupação foi fazer, digamos, um roadshow, para visitar e conversar com as diretorias dos associados e entender como eles enxergavam e o que esperam da Anef. Depois apresentamos nosso plano e fomos ajustando com as sugestões que fomos recebendo.
Como funcionará a transição do Enilson Sales da Fenauto para a Anef?
Algumas coisas foram negociadas com a diretoria anterior da Anef e os conselheiros: uma delas é que eu permaneceria na Fenauto até a eleição, que será em novembro. Será um processo de transição bem cuidado, à medida em que o tempo passa tarefas, atividades e responsabilidades serão transferidas para outras pessoas, para que o sucessor que sentar na cadeira não sinta o impacto de uma só vez. Tomamos o cuidado de fazer uma transferência com responsabilidade. Então hoje tenho dois focos, o principal que é a Anef, e o da Fenauto é fazer essa transferência.
E a sua chegada à Anef é em um novo momento da entidade. O que mudou e o que vai mudar e quais serão suas principais metas na gestão?
Muita coisa mudará. Primeiramente a Anef tinha em seu estatuto um formato em que só poderiam ser associados os bancos com 100% de capital atrelado à montadora. Isto restringia bastante o quórum da entidade. Então abrimos o espectro de associados para três categorias: bancos essencialmente de montadoras, com 100% do capital ou atrelado a montadoras, os bancos com capital parcial de montadoras e outras instituições financeiras, como o Banco Hyundai por exemplo, que tem parte com o Santander, e entidades que circulam no mundo de crédito, de tecnologia ou de distribuição. São empresas que prestam serviços para bancos de montadoras e para esse ambiente, como portais, uma grande certificadora, um grande player tecnológico. Todos eles são bem-vindos e podem ser abrigados hoje na Anef. Já temos propostas que estão em análise.
Seus antecessores eram presidentes de associadas. Você assume sem participar de nenhuma empresa?
Sim, o estatuto foi alterado em assembleia para abrigar esta nova figura que é o presidente executivo. É o presidente que representa a entidade, toma as decisões e as executa, mas a estratégia continua sendo debatida no Conselho Deliberativo, do qual o presidente faz parte, mas é apenas um voto a mais.
Vamos falar agora um pouco mais sobre o ambiente do setor. Qual é a expectativa para a concessão de crédito automotivo em 2025?
Bom, dois cenários impactavam diretamente: o primeiro era o externo, com toda essa bagunça que se instalou no mercado e que acaba atingindo o setor automotivo, essas tarifas cruzadas, os Estados Unidos e a China elevando um para o outro as tarifas de importações, o Canadá e o México tendo as tarifas aumentadas. Tudo isso impacta na cadeia produtiva e nas projeções, porque mexe com a previsão de oferta e tudo o mais. O outro cenário é o não atingimento das metas internas de controle inflacionário previstas no orçamento. E agora chegou o terceiro cenário, que é bem complicado, que é o aumento do IOF. Todo mundo falou do câmbio e das operações no Exterior, mas na realidade acaba atingindo o mundo automotivo, especialmente sobre o floor plan, que são os financiamentos dos estoques dos concessionários. Com o IOF subindo, ficou mais caro. E também para o CDC para pessoas jurídicas, como os frotistas e locadoras. Ou seja, um cenário que estava bem em 2024, com o sol bonito, agora vê umas nuvens chegando.
Dentro de todo este cenário é possível dizer que o crédito continuará subindo? Vocês tinham uma projeção de alta de 8,5% no volume de recursos liberados. Ela segue?
Só conseguiremos entender, ter um desenho um pouco mais transparente, quando tivermos uma análise mais segura do que ocorrer com a IOF. De um dia para o outro o imposto cresceu 130%, mas não sabemos ainda se vai prosseguir. Então não posso te dar um número exato porque ainda estamos fazendo cálculos.
A questão da IOF impacta mais no crédito do que a taxa Selic?
Não, os dois impactam, porque os dois compõem a taxa de juros. Toda vez que a Selic sobe a taxa tende a subir, porque é o custo que o mercado baliza. O IOF é cobrado na operação financeira e, neste caso específico, ele acaba integrando a taxa efetiva.
A inadimplência tem subido. É tendência manter esta alta?
O mercado de crédito está preocupado com a inadimplência. Recentemente foi divulgado que 70 milhões de brasileiros têm problemas de crédito ou inadimplência. É algo extremamente preocupante! A inadimplência é outro fator que ajuda a compor a taxa de juros, portanto com ela em alta a tendência é de juros crescendo também.
Existe um fator que não é medido oficialmente, mas que quem trabalha com venda de veículos consegue sentir que é a aprovação das fichas. Como anda isto?
Eu diria que ela tem caído. Não sei dizer exatamente como está a média, mas os números estão se deteriorando. O crédito está mais restrito e não enxergamos um horizonte positivo de imediato. Um grande problema hoje é a renda média do brasileiro, que é de R$ 3 mil a R$ 3,5 mil. Com essa renda o acesso ao veículo fica mais distante.
E como está a questão do Marco das Garantias, que veio para facilitar a retomada do veículo e ajudar a reduzir o spread?
Temos uma expectativa alta sobre o Marco das Garantias, porque ele realmente altera toda a composição da taxa de juros, porque reduz a inadimplência por dar uma segurança da retomada do bem. Acontece que a execução dele caminha a passos de tartarugas. Todo mundo entendeu que existe o marco, é uma legislação vigente mas ainda não está sendo praticada.