São Paulo – A microexplosão atmosférica que devastou a fábrica de motores da Toyota em Porto Feliz, SP, ficará para a história como um caso de foco e governança corporativa raramente testemunhado no universo automotivo. A liderança global jamais colocou o custo de importação dos primeiros motores ou paralisação da produção como prioridade, mas as pessoas, especialmente as impactadas direta e indiretamente com o evento extremo.
Priorizou-se a retomada dos negócios por meio de soluções rápidas e assertivas, como o início da produção de motores flex em um galpão alugado em Porto Feliz, semana passada, e um cronograma de reconstrução que culminará com uma fábrica totalmente nova e modernizada, a partir de 2028.
“Em momento algum deu-se prioridade para o custo e o impacto financeiro. A orientação era de que não poderíamos parar, diminuir o ritmo, pois isto representaria perdas maiores no futuro. Não poderíamos deixar os funcionários na mão. Nem os fornecedores e a rede. Muito menos o cliente. Essas foram as prioridades que o board nos passou horas após o ocorrido”, contou Evandro Maggio, presidente da Toyota do Brasil.
Especialistas japoneses em catástrofes naturais e os líderes globais de manufatura rapidamente formaram um grupo, junto com as lideranças brasileiras, para avaliar os danos e traçar um plano de ação. “Três dias após o ocorrido já tínhamos um plano de ação e um local para levar o maquinário”.
Maggio descreve que foi difícil comunicar a todos que seria interrompida a produção no País, mas esta foi a decisão mais acertada naquele momento para que agora, quatro meses após, toda a operação nacional esteja funcionando e próxima de atingir seu ritmo ideal: “As fábricas de Indaiatuba e Sorocaba vão trabalhar em capacidade total a partir de agora”.
Fábrica de motores
A produção de motores da Toyota no Brasil atendia um volume significativo de veículos fabricados no País. Também era base de exportação para a produção do Corolla, nos Estados Unidos. Em quatro meses uma série de ações reorganizou essa cadeia, de acordo com Evandro Maggio.
Primeiramente três fábricas no Japão, uma na Turquia e outra na Indonésia, passaram a produzir ou o motor inteiro ou partes diferentes dos motores, que voltaram ao Brasil para serem finalizados.
Essa operação envolveu fornecedores nacionais, que mandaram suas peças para o exterior, para que fossem utilizadas em partes específicas dos motores. “Poderíamos ter usado o fornecedor local, no Japão, por exemplo. Era até mais barato. Mas temos compromissos de longo prazo com nossos parceiros no Brasil e não poderíamos deixar esses fornecedores numa situação difícil. Esta decisão teve um impacto financeiro e logístico enorme que a Toyota absorveu porque faz parte da nossa cultura. Já passamos por outras situações como essa”.
Para algumas dessas operações a Toyota foi até o governo federal solicitar ajuda especial, uma licença temporária para utilizar ex-tarifários, mesmo considerando itens com similar nacional. “Pedimos ao ministro [do MDIC] Geraldo Alckmin uma condição especial e temporária de ex-tarifário. Trazemos motores semiprontos e desmontados”.
Enquanto a unidade de Porto Feliz é totalmente reconstruída porque “só dá para reaproveitar o chão da fábrica”, Maggio lidera os esforços para uma retomada da normalidade do abastecimento da rede, também impactada pela falta de produtos. A Toyota chegou a perder 20% das vendas logo após a paralisação da produção, em novembro.
Agora, as linhas de produção do Corolla e Corolla Cross e do novo Yaris Cross passarão a utilizar alguns motores vindos de outros locais. “Temos uma operação mista. Motores a gasolina do Corolla vindos do Japão. Os motores flex estão sendo montados aqui”.
O galpão alugado em Porto Feliz inicialmente para abrigar o maquinário acabou virando uma linha de montagem final para os motores flex. Parte dos 800 trabalhadores atuam ali, outra parte foi realocada para a unidade de Sorocaba e o restante do contingente está em regime de layoff. “Não vamos demitir, pois não queremos abandonar ninguém. Além disso são profissionais qualificados, que têm muito valor para nossa organização”.
Aliás, Maggio faz questão de manter todos seus colaboradores informados dos passos nesse processo de reconstrução. “Eu tenho ido ao refeitório no terceiro turno em Sorocaba, as 23h30, para fazer uma apresentação e deixar todos a par das ações que estamos tomando”.
Até o final de 2027, o planejamento é dar início aos testes finais de um novo conceito de produtividade para a unidade de Porto Feliz: “Teremos uma fábrica de motores mais enxuta, mais robotizada e mais compacta, para retomarmos totalmente essa operação em 2028”.