São Paulo – A Anfavea, segundo seu presidente, Luiz Carlos Moraes, ainda não discutiu o eventual desligamento da Ford da entidade. Em 11 de janeiro a empresa anunciou o fechamento de suas fábricas no Brasil, assumindo, a partir daí, papel somente de importadora. A Anfavea, Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, reúne apenas as empresas produtoras nacionais e assim, ao menos em tese, a presença da Ford não mais se enquadraria nos termos da entidade.
A Abeifa, Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores, é a entidade que abriga, em seu quadro, empresas que apenas importam veículos no Brasil, como é o caso de Jac Motors, Kia Motors, Porsche e Volvo Cars. Há também fabricantes nacionais, como BMW, Caoa Chery, Land Rover e Suzuki.
“Este tema não está sendo discutido agora. A Ford ainda está produzindo no Brasil, e até o fim do ano, encerrando gradativamente. Este tema não está na mesa. Vamos falar sobre ele na hora certa, no momento adequado, e agora ainda não é o caso.”
A declaração de Moraes foi feita em entrevista exclusiva à Agência AutoData concedida na quinta-feira, 4.
O presidente da Anfavea afirmou, ainda, não acreditar que o encerramento da produção nacional da Ford, ocorrida com efeito imediato, segundo o comunicado divulgado em 11 de janeiro, à exceção da unidade Troller de Horizonte, CE, que fechará até dezembro, possa prejudicar as estatísticas totais de produção nacional: “O mercado se ajustará, pois o volume que a Ford deixar de produzir outras fabricantes poderão atender. Observaremos isso nos emplacamentos”.
Assim, segundo Luiz Carlos Moraes, não deverá ocorrer nenhuma alteração na projeção de produção para este ano, divulgada em janeiro, de avanço de 25%, para 2,5 milhões de unidades, por causa dessa questão específica: "Esse tema [Ford] para mim não é prioridade”, ele insistiu.
Não custa lembrar que o destino, de certa forma, ajudou a Anfavea a evitar ser obrigada a tratar da questão Ford de forma ainda mais delicada. Pelo rodízio estabelecido por tradição na entidade o atual mandato, iniciado em 2019, teria na presidência executivo da Ford, no caso Rogelio Golfarb, vice-presidente para a América do Sul, que já ocupou a presidência da Anfavea de 2004 a 2007. O rodízio se estabelece na ordem Mercedes-Benz, Fiat, General Motors, Volkswagen, Ford, sendo que o primeiro vice-presidente é sempre executivo da empresa seguinte no rodízio e, quase sempre, indicado para assumir a presidência no mandato seguinte. Golfarb era o vice de Antônio Megale, da VW, no mandato 2016-2019.
Em 2019, entretanto, um grupo de empresas associadas que não participa do rodízio se organizou para formar chapa concorrente à da Ford na presidência e M-B na vice-presidência, sendo encabeçada por executivo da Hyundai com um da PSA como vice. Foi uma circunstância notável, pois historicamente as eleições para a Anfavea e para o Sinfavea são disputadas por chapa única. Diante do impasse, na época, então, a Ford abdicou de sua vez, assim como a Hyundai desistiu do pleito. A chapa única então foi formada pelos dois vices, de Mercedes-Benz e PSA, respectivamente Luiz Carlos Moraes e Fabrício Biondo, que acabou efetivamente eleita por aclamação.
Não tivesse ocorrido esta disputa interna o presidente da Anfavea, hoje, seria Rogelio Golfarb, da Ford. E a Anfavea teria que administrar a situação sui generis de ter como seu principal dirigente o executivo de uma empresa que decidiu deixar de produzir localmente, atuando no Brasil apenas como importadora – o que configuraria quadro absolutamente inédito na história da entidade.
É de se imaginar, assim, ainda que apenas no campo da total suposição, que o destino de Luiz Carlos Moraes era efetivamente assumir a presidência no atual mandato e não no próximo, como a tradição indicava, no caso então de uma possível renúncia de Golfarb dadas as circunstâncias do momento. Este cenário, porém, o destino se encarregou de evitar.
Foto: Alberto Coutinho/GOVBA.