São Paulo – O lançamento do programa Move Brasil, que busca socorrer a indústria de caminhões ao oferecer crédito a juros subsidiados com recursos do Tesouro e do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, ainda não trouxe impactos significativos ao setor. Dados da Anfavea mostram que, no primeiro bimestre, a produção de 14,6 mil unidades recuou 27% com relação ao mesmo período em 2025, quando 20 mil unidades saíram das fábricas.
Quando analisado apenas fevereiro, em que 7,8 mil caminhões foram produzidos, o número está 14,5% acima dos 6,8 mil de janeiro mas 35% abaixo do resultado do segundo mês do ano passado, 12 mil unidades.
O presidente executivo da Anfavea, Igor Calvet, reconheceu que a reação mensal pode estar relacionada ao programa, ao ponderar que, embora o vice-presidente e ministro do MDIC, Ministério do Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, tenha relatado a contratação de R$ 4,2 bilhões por meio do Move Brasil, existe um tempo do faturamento ao emplacamento:
“Este intervalo de tempo costuma se estender por sete a doze semanas. Só então veremos melhor os números, nos próximos meses, provavelmente depois que o programa estiver encerrado. Há relatos de que pedidos de avaliação de crédito cresceram 50% de um mês para outro”.
Calvet destacou, ainda, que há questões relacionadas ao programa que são impeditivos, em menor escala, como o fato de ele ser aplicado a apenas um CNAE de transportador, o 4390, que abrange 65% do mercado, mas ao mesmo tempo são excluídos 35% dos compradores.
Vendas de pesados recuam 36,3% no bimestre
Foram comercializados no primeiro bimestre 13,1 mil caminhões, 28,7% a menos do que os 18,4 mil dos dois meses iniciais de 2025. Em fevereiro os 6,7 mil emplacamentos ficaram 3,3% acima dos 6,4 mil de janeiro mas 25,7% abaixo de igual período no ano passado, quando as vendas alcançaram 9 mil unidades.
Quanto aos caminhões pesados, os mais afetados, devido ao custo mais elevado, a Anfavea mostrou que o tombo é ainda maior, de 36,3% no acumulado do ano, 5,5 mil unidades, enquanto que no mesmo período de 2025 foram 8,7 mil unidades.
No mês passado houve estabilidade frente a janeiro, com 2,8 mil emplacamentos, leve alta de 0,5%. Com relação aos 3,9 mil na comparação anual a queda é de 28,2%.
“Os números ainda não mostram, mas vamos começar a ver, dado o valor negociado, que os resultados aparecerão”, assinalou Calvet, ao destacar que o número de empregos perdidos nas fabricantes de caminhões tem diminuído, ao totalizar 180 postos no bimestre, uma vez que no ano passado os cortes chegaram a setecentos profissionais, o que também é um indicativo.
Renovação de frota pode ser destravada com recursos da Petrobras?
Perguntado sobre a possibilidade de o programa tornar-se perene, como sinalizou recentemente Alckmin, a partir do uso de um fundo com recursos da Petrobras, o presidente executivo disse que a entidade não foi consultada, mas que soube de conversas a respeito.
Em reportagem da Agência AutoData publicada no fim de fevereiro, fontes disseram que circulam nos bastidores de Brasília, DF, que o plano é estabelecer definitivamente programa de renovação de frota após o término da validade do Move Brasil, o que agora ganha mais força quando o vice-presidente da República sinaliza de onde poderia sair a verba.
“Não temos tanto conhecimento quanto às bases legais, aparentemente pode ser algo relativo a dispêndios em P&D. Mas precisaríamos deste arcabouço legal para perenizar a iniciativa”, apontou Calvet. “Não sei se é algo envolvendo apenas a Petrobras. Imagino que para ser definitivo seriam necessários diálogos intersetoriais, envolvendo toda a indústria de combustíveis.”