Elevação dos juros atrapalha planos das montadoras

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Foto Jornalista  Bruno de Oliveira

Por Bruno de Oliveira

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30/04/2020

São Paulo – Está nas mãos dos bancos o destino das montadoras e de sua cadeia de fornecedores nos próximos meses. Indicadores econômicos, no entanto, pintam cenário desafiador para as empresas que precisam de crédito para reagir aos efeitos estruturais da pandemia de covid-19. Os juros apresentam tendência de elevação tanto nos empréstimos para empresas quanto para aquisição de veículos, na ponta da cadeia.

 

Na linha do que analistas apontaram sobre recuperação lenta e menor consumo, os dados do Banco Central indicam que a taxa de inadimplência para aquisição de veículos cresceu,  de fevereiro a março, de 3,6% para 3,7%.

 

“E uma vez a inadimplência mais alta, como é de se esperar para os próximos meses com eventual aumento do desemprego, o juro no longo prazo fica maior", disse Rodnei Bernardino de Souza, diretor do Itaú responsável pela área de veículos. "Isto porque aumenta o risco de quem dispõe o recurso. Isso afetará diretamente o consumo de bens duráveis que dependem de crédito até para serem produzidos.”

 

Os números do BC mostram que a taxa média de juro para aquisição de veículos também aumentou de fevereiro para março, passando de 19,4% a 19,8% ao ano – em direção oposta à taxa básica de juros, que segue em queda. Embora pareça uma contradição, há uma justificativa, explica Souza: “Se a tendência de desemprego seguir daqui para frente, com a óbvia diminuição da massa salarial, a taxa tende a aumentar mais para compromisso de longo prazo”.

 

Se na ponta do consumo o cerco aperta para aqueles que recorrem aos financiamentos, do lado produtivo a concessão de crédito também se mostra como fator complexo. Executivos do setor afirmam que a indústria busca formas, em Brasília, DF, e nos bancos de varejo, de fortalecer caixa para tocar a operação nos próximos meses, algo ainda em negociação.

 

Fonte ouvida pela Agência AutoData informou que a empreitada das montadoras na busca por recursos tem enfrentado uma série de entraves. O Ministério da Economia seria, segundo a fonte, contrário a uma linha de financiamento às montadoras e favorável ao crédito à cadeia que é constituída em grande parte por pequenas e médias empresas.

 

Por outro lado o ministério teria designado as demandas do setor automotivo para um banco de varejo, que ofereceu uma espécie de pacote baseado na oferta de crédito a juros considerados altos pelas fabricantes.

 

“O BNDES não aceita como garantia os ativos das montadoras nem a restituição de impostos que os estados devem a elas, como o ICMS. Dizem que não trabalham com garantias”, disse a fonte. "Houve conversas com um banco por intermédio do governo, mas os juros oferecidos são uma loucura, querem lucrar em cima da indústria.”

 

Uma resolução a respeito do tema é aguardada até 8 de maio, quando a Anfavea divulgará o balanço do setor referente a abril, mês marcado pela interrupção de produção das fábricas instaladas no País. O quadro deverá ser de queda abrupta considerando o desempenho comercial em mês de revendas fechadas: segundo dados do Renavam até a quarta-feira, 29, pouco mais de 50 mil unidades tinham sido vendidas. A expectativa de varejistas é fechar o mês com licenciamentos na casa de 55 mil veículos, grande parte resultado de venda direta.

 

Outro fenômeno da nova realidade dos juros já é sentido por operadores de veículos pesados: segundo o diretor de vendas e marketing de ônibus da Mercedes-Benz, Walter Barbosa, as taxas cobradas pelo CDC voltaram a ser superiores à do Finame. No ano passado o cenário era inverso, o que fez com que o CDC respondesse por mais de 80% dos financiamentos de caminhões e ônibus, campo usualmente dominado pelas linhas do BNDES.

 

Foto: Ijeab/freepik.