Bruno Plattek de Araújo falou sobre o planejamento do banco de fomento durante o Congresso AutoData Perspectivas e Tendências
São Paulo – O BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, voltou a ocupar posição central no financiamento da indústria automotiva brasileira, consolidando desde 2023 volume de recursos que supera R$ 10 bilhões – mais do que o dobro dos três anos anteriores. Todo o planejamento do banco para o setor foi apresentado por Bruno Plattek de Araújo, seu gerente do Departamento de Indústrias Intensivas em Tecnologia e Conectividade, durante o Congresso AutoData Perspectivas e Tendências 2026.
Os investimentos estão fortemente alinhados com a política de neoindustrialização do governo federal, que coloca o setor automotivo como fundação estratégica do desenvolvimento industrial do País. Do valor total aprovado pelo menos R$ 2 bilhões estão destinados especificamente a projetos de hibridização, desenvolvimento de novos veículos e máquinas agrícolas movidas a etanol.
“Estamos muito em contato com as empresas. Além da Volkswagen outras estão fazendo financiamento pelo Programa Mais Inovação para desenvolvimento de tecnologias híbridas, ligadas à descarbonização.”
O Programa Mais Inovação emerge como um dos principais instrumentos do banco para o setor. Além do apoio direto às montadoras o programa oferece R$ 10 bilhões para a linha Bem de Capital 4.0, dedicada à modernização do processo produtivo por meio da aquisição de máquinas e equipamentos.
A taxa oferecida é a TR, Taxa Referencial, significativamente mais competitiva do que as linhas tradicionais de mercado. “Importante dizer que isto não é crédito direto apenas. Ele está rodando mais no indireto do que no direto”, destacou Araújo, referindo-se ao acesso via agentes financeiros, fundamental para micro, pequenas e médias empresas da cadeia de autopeças.
Linhas de crédito
Outro destaque é o Fundo Clima, que saltou de uma operação de R$ 300 milhões a R$ 400 milhões para uma escala de R$ 10 bilhões em 2024, com projeção de dobrar em 2025. O fundo, lastreado em captação externa do Tesouro Nacional, tornou-se veículo essencial para financiar projetos relacionados à descarbonização. O banco também registra carteira recorde no apoio a ônibus elétricos e sistemas de mobilidade urbana em municípios brasileiros.
Bruno Plattek de Araújo. Fotos: Bruna Nishihata.
No campo da pesquisa e desenvolvimento o BNDES lançou chamada para centros de P&D que recebeu mais de R$ 1 bilhão em propostas do setor automotivo. Paralelamente o banco mantém ativo o FNDIT, Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico, vinculado ao Programa Mover, que gerencia cerca de R$ 600 milhões anuais para projetos de P&D automotivo com recursos não reembolsáveis.
“Isto não é crédito: isto é recurso não reembolsável.”
O BNDES coordena especificamente o Programa Prioritário de Descarbonização da Mobilidade e Logística, com carteira superior a R$ 100 milhões em projetos atualmente em análise.
Acelerar a descarbonização
A entrada de montadoras com origem na China e o possível Acordo Mercosul-União Europeia são movimentos que podem acelerar os planos de descarbonização das montadoras aqui já estabelecidas e demandam qualificação da cadeia produtiva local. O banco mantém regras de conteúdo local para veículos pesados, incluindo normas específicas para eletrificação e hibridização, constantemente revisadas para direcionar demanda à cadeia nacional.
O financiamento de veículos pesados, historicamente uma fortaleza do BNDES, chegou a responder por 70% das vendas de caminhões e ônibus no País. O custo elevado do Finame tradicional, baseado na TLP, afetado pela Selic e perspectivas inflacionárias, limita atualmente essa atuação: “Hoje não se tem uma discussão concreta para a revisão da TLP”.
Como alternativa, o banco oferece o Fundo Clima e a recém-lançada LCD, com isenção de imposto de renda e custo abaixo da TLP.
O banco também estruturou o programa Brasil Mais Soberano, voltado a exportadores impactados por tarifas, com mais de trinta operações em andamento só no departamento de Araújo. Há ainda retomada significativa do financiamento pré-embarque para exportação de veículos pesados.
O BNDES também possui linhas de crédito para a produção de componentes para veículos elétricos, especialmente baterias. O desafio, segundo ele, está em “fechar o gap de investimento para conseguir adensar um pouco a parte de cadeia de eletrificação no Brasil”. O banco lançou chamada específica para minerais estratégicos, incluindo terras raras, tema que Araújo classifica como “bem quente” do ponto de vista de investimento.
“Aprendemos com os principais industriais, com o Sindipeças e com a Anfavea que o futuro, aqui, passa pelo uso da bioeletrificação. Ele é elétrico, mas ele também é biocombustível”, concluiu o executivo, deixando claro o direcionamento estratégico do banco para os próximos anos.