Ford Taboão: todos com os olhos no BNDES.

Imagem ilustrativa da notícia: Ford Taboão: todos com os olhos no BNDES.

São Paulo – Enquanto a cortina vai se fechando na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo, SP, os interessados na compra da unidade – governo do Estado, município e Caoa – estreitam o cerco em torno do BNDES, onde buscam recursos para financiar um novo empreendimento no local que já encerrou a produção do hatch Fiesta e aguarda o fim do estoque de peças para encerrar a produção de caminhões.

 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem sido cortejado pelos envolvidos desde maio. João Doria, governador de São Paulo, esteve com o ministro em duas oportunidades em São Paulo, em almoço na Fiesp e durante reunião no escritório do ministério na cidade. Carlos Alberto de Oliveira Andrade, presidente da Caoa, se encontrou com o ministro em três oportunidades, uma delas com representantes do BNDES, em junho.

 

Na quarta-feira, 24, foi a vez de Orlando Morando, prefeito de SBC, ir ter com o ministro em Brasília, DF. O prefeito aproveitou reunião de gente do ministério com prefeitos de São Paulo sobre reformas tributária e previdenciária para solicitar o apoio do BNDES no negócio envolvendo a fábrica do Taboão. Segundo Morando, por meio de comunicado, Guedes se mostrou “preocupado com tudo o que envolve a fábrica” e que o banco “tem disposição em ajudar o grupo interessado na compra”.

 

Os encontros estariam sendo realizados como forma de persuadir o Ministério da Economia a tornar viável linha de crédito para o fincanciamento da compra da fábrica da Ford no ABC Paulista. Fonte ouvida pela Agência AutoData disse que Guedes estaria relutante em aceitar os termos estabelecidos pela Caoa porque seguem na contramão daquela que é uma das bandeiras da política econômica do atual governo, que é o corte de gastos por meio, dentre outras coisas, fim aos subsídios.

 

Em reunião recente representantes da Caoa se reuniram com funcionários do BNDES em tono de uma linha de crédito de R$ 3 bilhões, mas, segundo a fonte, as pessoas ligadas à montadora “não sentiram muita firmeza” na contraproposta que ouviram do banco, que se mostrou inclinado a oferecer uma linha de crédito com valores mais modestos do que a Caoa acredita ser ideal para o fechamento do negócio.

 

Ninguém confirma o valor envolvido no negócio Ford, mas é certo que a empresa que comprar a fábrica do Taboão terá de desembolsar mais de R$ 1 bilhão se for conveniente enquadrar-se no IncentivAuto, a política estadual de incentivos ao setor automotivo.

 

O fato de Paulo Guedes reservar tempo para ouvir o que tem a dizer o tripé Estado-município-Caoa sobre a fábrica da Ford mostra que o governo, via BNDES, estaria disposto a colaborar com a realização do empreendimento, e também a colaborar com os assuntos ligados ao setor automotivo, algo que, segundo a fonte ouvida por AutoData, não vinha acontecendo a respeito das pautas setoriais.

 

Com o início dos trabalhos do atual governo, em janeiro, muitas montadoras procuraram o Ministério da Economia para apresentar seus pleitos regionais e as empresas teriam recebido negativas a respeito da concessão de benefícios fiscais. Tanto que a General Motors, dentre outras, teve que recorrer aos estados para solicitar incentivos e, assim, anunciar novos investimentos. Desse movimento, por exemplo, surgiu o IncentivAuto, em março.

 

Em março, ainda, o ministro chegou a receber representantes da Anfavea para tratar das reformas e do acordo comercial com a União Europeia, que viria a ser assinado em junho, e depois desse compromisso as conversas do setor com o ministério minguaram.

 

Em julho, no entanto, houve uma espécie de retomada, e o ministro recebeu em seu gabinete Carlos Zarlenga, presidente da General Motors na América do Sul, e Barry Engle, presidente da montadora para as Américas, para tratar da exportação de veículos e do ajuste no imposto de importação – um pleito setorial encabeçado pela GM em Brasília.

 

A busca por recursos no BNDES correm em paralelo com conversas mantidas por Caoa na Ásia para conseguir capital chinês e, assim, fechar o negócio com a Ford pela fábrica do Taboão. O assunto é considerado chave e a complexidade em torno das negociações levaram o governo de São Paulo a trabalhar com um novo prazo para o desfecho da aquisição: o que era esperado para acontecer em junho acabou sendo protelado para dezembro, com o endosso da Ford, inclusive. A novela segue.

 

Foto: Divulgação.