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Ano 35 | Outubro 2026 | Edição 437 Ninguém arrisca grandes resultados From the Top Tadeu Silva, da Acrefi NO RUMO INCERTO DE

» ÍNDICE Outubro 2026 | AutoData 26 CESTARI 40 KPMG 62 MAXION 86 ASSOBENS 2027 CAOA HONDA MERCEDES-BENZ GM HYUNDAI SCANIA NISSAN VWCO RENAULT GEELY VOLVO STELLANTIS MÁQUINAS VOLKSWAGEN ARGENTINA MACROECONOMIA VEÍCULOS LEVES AUDI IMPORTAÇÕES AUTOPEÇAS BALANÇO BYD GWM IVECO TOYOTA MOTOCICLETAS CAMINHÕES ÔNIBUS FOTON 46 34 18 42 28 64 54 65 68 99 66 69 100 67 70 101 71 102 73 104 75 72 103 74 112 78 88 98 Presidente da associação que reúne mais de 80 instituições de crédito fala sobre as perspectivas para os financiamentos de veículos FROM THE TOP TADEU SILVA, ACREFI 8 118 OS INVESTIMENTOS Tabelas atualizadas mostram onde estão sendo aplicados os ciclos bilionários dos fabricantes de veículos GENTE & NEGÓCIOS Notícias da indústria automotiva e movimentações de executivos pela cobertura da Agência AutoData 122 128 FIM DE PAPO As frases e os números mais relevantes e irrelevantes do mês, escolhidos a dedo pela redação

» EDITORIAL AutoData | Outubro 2026 Diretor de Redação Leandro Alves Conselho Editorial Isidore Nahoum, Leandro Alves, Márcio Stéfani, Pedro Stéfani, Vicente Alessi, filho Redação Pedro Kutney, editor Colaboraram nesta edição André Barros, Andrea Ramos, Arthur Caldeira, Lúcia Camargo Nunes, Natasha Werneck, Rúbia Evangelinellis, Soraia Abreu Pedrozo Projeto gráfico/arte Romeu Bassi Neto Fotografia DR/Divulgação Capa IA Gemini Comercial e publicidade tel. PABX 11 3202 2727: André Martins, Luiz Giadas, Renato Vieira, Rosa Damiano, Valdir Vieira e Vanessa Vianna Atendimento ao cliente tel. PABX 11 3202 2727 Departamento administrativo e financeiro Isidore Nahoum, conselheiro, Thelma Melkunas, Hidelbrando C de Oliveira ISN 14157756 AutoData é publicação da AutoData Editora e Eventos Ltda., Av. Guido Caloi, 1000, bloco 5, 4º andar, sala 434, 05802-140, Jardim São Luís, São Paulo, SP, Brasil. É proibida a reprodução sem prévia autorização e permitida a citação com identificação da fonte. Jornalista responsável Leandro Alves, MTb 30 411/SP autodata.com.br AutoDataEditora autodata-editora autodataseminarios autodataseminarios Por Pedro Kutney, editor Rumo incerto, transformação certa Se o rumo de 2027 para a indústria automotiva ainda é incerto, pois depende de fatores políticos e econômicos, o que está absolutamente certo é a continuação da rota de transformação profunda do setor. Os dados até agora mostram que 2026 será encerrado como um ano melhor do que era esperado, com mercado na casa dos 3 milhões de veículos vendidos, número que não se via desde o distante 2014. O crescimento, em torno de 15% ao fim deste ano, foi desigual, com alta expressiva esperada de mais de 16% para veículos leves e baixa de 6% a 7% para os pesados – o que também pode ser considerado um bom desempenho em face dos ventos contrários. A grande diferença do atual mercado de 3 milhões para aqueles de anos atrás é que a indústria nacional não aproveitou o mesmo desempenho: 2026 deve fechar na casa de 2,8 milhões de veículos fabricados aqui, em alta estimada de quase 7% sobre 2025, porcentual que representa menos da metade da expansão das vendas domésticas. O hiato está no recuo das exportações, de 23% de janeiro a setembro, e expressiva alta, acima dos 20%, das importações, que devem superar 600 mil unidades – isto sem contar carros importados em kits CKD/SKD para montagem local disfarçada de produção nacional, que pode ultrapassar 150 mil este ano. Outra grande diferença para o passado está nos veículos, que mais rápido do que se imaginava assimilaram avanços tecnológicos, incluindo a eletrificação em diferentes níveis, oferecendo opções a preços que os consumidores brasileiros não estavam acostumados. As apostas para 2027 apuradas nesta edição de AutoData são de, no mínimo, repetição do cenário atual. Ninguém antecipa grandes quedas, tampouco altas expressivas. Espera-se por redução de juros que possam suavizar as prestações dos financiamentos, contudo já está feito o estrago das altas taxas dos últimos anos, que junto com as bets elevaram a inadimplência e tornaram os bancos mais seletivos e avessos ao risco de conceder crédito. Este cenário segue alimentando o que já está sendo chamado de maior ciclo de transformação do setor automotivo do País. A principal disrupção vem da expansão das vendas de modelos eletrificados, em grande número importados da China, montados ou desmontados, com tecnologias e preços que a indústria nacional pouco consegue acompanhar. O setor automotivo seguirá ajustando sua rota em 2027, mas a direção a ser tomada depende de políticas públicas que dosarão a intensidade das mudanças e que definirão se o País desenvolverá tecnologias e proporá caminhos ou simplesmente seguirá o que lhe apresentarem.

8 FROM THE TOP » TADEU SILVA, ACREFI Outubro 2026 | AutoData Crédito ao crédito Tadeu Silva soma mais de três décadas no setor financeiro e dedica boa parte de sua vida profissional à ampliação dos instrumentos de crédito no País. Ele é cofundador do Omni Banco e Financeira, hoje Omni & Co, do qual foi o CEO por quase 29 anos. Silva segue no conselho da instituição e atualmente dedica a maior parte do seu tempo e experiência a atividades institucionais: a principal delas, desde 2024, como presidente da Acrefi, associação chamada de A Casa do Crédito, que representa mais de oitenta instituições financeiras. Dentre suas ambições à frente da Acrefi está o objetivo de dar mais crédito ao crédito, tornando mais eficiente, moderna e acessível esta ferramenta que amplia as possibilidades da compra de bens. E um dos segmentos de maior potencial de crescimento é o financiamento de veículos, uma das maiores carteiras de financiamento ao consumo do País, por facilitar em prestações a aquisição do segundo bem durável mais caro e desejado pelos brasileiros. Silva avalia que as perspectivas dos financiamentos de veículos neste e no próximo ano apontam para crescimento gradual e continuado, apesar dos juros e inadimplência em alta que tornam o crédito caro e de aprovação mais restrita. Mas o potencial é muito maior do que sugere o crescimento dos últimos anos. Silva observa que há muito terreno para expansão, pois atualmente apenas 25% dos carros usados vendidos são financiados, e o crédito só facilita a compra de metade dos veículos zero-quilômetro, deixando a outra metade aberta a uma grande oportunidade. Na entrevista a seguir Tadeu Silva fala das perspectivas e do potencial do mercado de crédito para compra de veículos no País. Segundo levantamento do Banco Central até agosto as carteiras de crédito para compra de veículos somavam R$ 550 bilhões em contratos ativos, valor que este ano cresceu 4,4% para pessoas físicas e registra queda de 6,9% para pessoas jurídicas. Qual é o desempenho esperado do mercado de crédito para financiar veículos no País este ano e no próximo? O movimento é para cima ou para baixo? O movimento é para cima e isso é muito positivo, mas ocorre em ritmos diferentes no crédito para pessoa física e jurídica. Os dados do Banco Central de agosto indicaram que a carteira para pessoa física atingiu R$ 415 bilhões. Já na pessoa jurídica tivemos uma retração pequena, ligada à questão das frotas. O segmento de caminhões é mais sensível por se tratar de investimento produtivo, dependendo diretamente da atividade econômica e do custo do dinheiro. Para 2027 a estimativa é de crescimento no volume de financiamentos, mas em porcentuais mais moderados por causa do cenário econômico global. O próprio Entrevista a Pedro Kutney Clique aqui para assistir à versão em videocast desta entrevista

9 AutoData | Outubro 2026 Divulgação/Acrefi

10 FROM THE TOP » TADEU SILVA, ACREFI Outubro 2026 | AutoData trabalho e, como a frota brasileira está envelhecida, não dá para adiar a substituição. Há também o peso dos trabalhadores de aplicativos, que impulsionaram a compra e a troca de carros e motos. Outro ponto decisivo foi a concorrência, ampliada com a chegada de novas marcas, sobretudo montadoras chinesas, e pelo programa Move Brasil para o carro sustentável. Isto ajudou a reduzir preços e a melhorar as condições de financiamento. Destaco ainda a eficiência do sistema bancário, que dispõe de mais dados para conceder crédito rapidamente, e a garantia da alienação fiduciária. Em um cenário adverso no crédito geral a garantia real do veículo dá mais apetite ao risco para as instituições e reflete em taxas melhores para o consumidor. Qual é o cenário do crédito nos diferentes mercados de veículos? Quais diferenças de desempenho vêm sendo notadas para automóveis usados e novos? Temos um espaço imenso para crescer nos dois segmentos. Nos carros usados apenas 25% do volume vendido é financiado. Ou seja: um em cada quatro veículos. Há uma grande oportunidade nessa frente. Nos novos a proporção de Banco Central trabalha com uma projeção de expansão de 8,8% no crédito geral para as famílias no ano que vem. Além disso as instituições financeiras, embora continuem concedendo crédito, estão fazendo isso de forma mais seletiva e cautelosa. Apesar dos ventos contrários, com juros e inadimplência em alta, além de volatilidade econômica e política, o financiamento de veículos demonstra resiliência e bate recordes este ano. Segundo a B3, nos nove primeiros meses de 2026, foram financiados 5,8 milhões de veículos novos e usados no País, alta de 9% com relação ao mesmo período de 2025. O volume de setembro foi o maior para o mês em quinze anos, com 670,7 mil unidades financiadas. Em valores, segundo dados do BC, de janeiro a agosto as novas concessões para pessoa física cresceram 22,7%, somando R$ 22,5 bilhões somente em agosto. A quais fatores o senhor atribui estes números em um cenário tão adverso? Há vários fatores que justificam este comportamento. O primeiro é a necessidade de trocar o veículo. Muita gente utiliza o carro como instrumento de “ Para 2027 a estimativa é de crescimento no volume de financiamentos, mas em porcentuais mais moderados. Os bancos e as financeiras continuam concedendo crédito e mantêm o apetite operacional, mas diante da alta na inadimplência atuam com cautela redobrada na análise de capacidade financeira dos clientes.”

11 AutoData | Outubro 2026 desafiador. A aquisição de um veículo pesado é uma decisão de investimento e, com os juros reais elevados nos últimos dois anos, o transportador tende a adiar a renovação da frota. De janeiro a setembro foram vendidos quase 80 mil caminhões novos, queda de cerca de 4% sobre igual período do ano anterior. O Move Brasil [programa de financiamento com juros subsidiados] ajudou a sustentar vendas ao longo do ano, mas o encerramento do protocolo de operações em 28 de agosto trará impactos neste último trimestre. A expectativa é que 2026 ainda seja um ano de ajuste, dependendo de 2027 para uma recuperação mais consistente do setor. No fim de 2023 o Congresso Nacional aprovou o Marco Legal das Garantias para permitir a retomada de bens de clientes inadimplentes sem necessidade de autorização judicial. Esse mecanismo está funcionando conforme o esperado para reduzir riscos e baixar juros? O Marco Legal das Garantias representou um avanço conceitual importante mas ainda entregou muito pouco do seu potencial devido a entraves na sua operacionalidade. A lei foi publicada em 2023 e validada pelo STF, mas retomada “ O crédito para compra de automóveis tem espaço imenso para crescer. Nos carros usados apenas 25% do volume vendido é financiado. Nos novos a proporção de vendas financiadas chega a 50%, o que também deixa metade do mercado aberta.” vendas financiadas chega a 50%, o que também deixa metade do mercado aberta. Em países de mercado maduro, como os Estados Unidos, 80% das vendas de modelos zero-quilômetro são financiadas. Aqui, no segmento de veículos novos o desempenho dos financiamentos está mais atrelado às condições comerciais oferecidas pelas montadoras e à entrada de novos fabricantes. Para os usados o volume financiado depende diretamente das taxas de juros do mercado, com boa expectativa de segurança trazida pela implantação do Renave [Registro Nacional de Veículos em Estoque, sistema digital criado pelo governo brasileiro para controlar a entrada e a saída de veículos no estoque de concessionárias e revendas]. E no segmento de veículos comerciais, como caminhões e ônibus, qual é o cenário para financiamento de modelos novos e usados? Observamos cenários distintos para veículos leves e pesados. Para modelos comerciais leves o mercado mantém bom desempenho. Picapes e utilitários registram demanda consistente, muito ligada ao trabalho diário e ao agronegócio. Já o segmento de caminhões e ônibus enfrenta um ambiente bem mais

12 FROM THE TOP » TADEU SILVA, ACREFI Outubro 2026 | AutoData extrajudicial por meio dos Detran continua em discussão na Suprema Corte. Enquanto esta questão não for pacificada o mecanismo opera de forma parcial e desigual nos estados. Hoje dependemos prioritariamente dos cartórios [para executar a retomada do bem], o que limita a agilidade esperada. Em testes práticos feitos no Mato Grosso do Sul e em São Paulo o prazo médio para resolução de inadimplência caiu de 118 para trinta dias. Esta celeridade é essencial porque o objetivo das instituições não é ficar com o bem, mas sim renegociar ou ter previsibilidade jurídica. Defendemos a participação ativa dos Detran para dar escala a este processo, o que reduzirá o risco do crédito e se reverterá em queda nas taxas de juros. Apesar dos cinco cortes seguidos na taxa Selic os juros básicos da economia seguem em patamar elevado, em 13,75% ao ano. Qual trajetória do índice a Acrefi projeta para os próximos meses? Temos um horizonte curto, com a próxima reunião do Copom [Comitê de Política Monetária do BC] marcada para o início de novembro. Acreditamos que ainda haverá espaço para ajuste no juro este ano, a depender do cenário eleitoral e fiscal, projetando que a Selic feche o período em torno de 13,5% ao ano. O juro básico caiu mas as taxas para financiamento de veículos continuam elevadas. Em março, com a Selic a 15%, a taxa média de financiamento a pessoas físicas era de 26,6% ao ano, o que representava spread de 11,6 pontos. Com a Selic agora a 13,75% a taxa média permaneceu quase inalterada, em 26,4%, elevando o spread para 12,65 pontos. Por que o custo do financiamento de veículos não cai na mesma proporção da Selic? A Selic é apenas um dos componentes na formação do preço final do crédito. A taxa cobrada ao consumidor inclui o custo de captação – que paga Selic mais uma margem ao investidor –, custos de cobrança, tributação e a estimativa de perda por inadimplência. O que ocorreu nos últimos meses foi uma elevação expressiva da inadimplência. Esse aumento no risco de perda neutralizou o efeito benéfico da queda da Selic e expandiu o spread financeiro. Como o crédito se baseia fundamentalmente em confiança e previsibilidade, a elevação das incertezas obriga a inclusão dessa margem de risco no preço final. “ Tivemos um salto significativo na inadimplência. A causa principal foi a permanência da taxa Selic acima de 12% por um longo período. Outro elemento relevante foi o desvio de renda das famílias para apostas eletrônicas, as bets. Muitos tomadores aprovados no crédito comprometeram seu orçamento meses depois nessas plataformas. A inflação acumulada também reduziu a renda disponível.”

13 AutoData | Outubro 2026

14 FROM THE TOP » TADEU SILVA, ACREFI Outubro 2026 | AutoData A inadimplência nas carteiras de veículos estacionou em níveis bastante altos: até agosto estava em 6,6% para pessoas físicas e 5,8% para empresas, segundo levantamento do BC. Quais são as causas dessa elevação e quais as perspectivas para os próximos meses? Tivemos um salto significativo na inadimplência, uma alta expressiva na ponta corporativa e das famílias. A causa principal foi a permanência da taxa Selic acima de 12% por um longo período, encarecendo as prestações do estoque de crédito. Outro elemento relevante apurado recentemente foi o desvio de renda das famílias para as apostas eletrônicas, as bets. Muitos tomadores aprovados no crédito comprometeram seu orçamento meses depois nestas plataformas, afetando a capacidade de pagamento de obrigações essenciais. A inflação acumulada também reduziu a renda disponível para pagar as prestações. Para o futuro a evolução da inadimplência dependerá da condução da política econômica e dos ajustes fiscais do novo governo. O dado recente de ligeira queda no endividamento das famílias sinaliza que o indicador pode estar se estabilizando. “ O Marco Legal das Garantias representou um avanço conceitual importante, mas ainda entregou muito pouco do seu potencial devido a entraves de operacionalidade. Defendemos a participação ativa dos Detran para dar escala a este processo, o que reduzirá o risco do crédito e reverterá em queda nas taxas de juros.” Como está o comportamento atual das financeiras na aprovação de crédito para os diferentes tipos de veículos? A dinâmica é uniforme nos diversos segmentos. Todos enfrentam o mesmo cenário de desaceleração econômica e de comprometimento da renda familiar e corporativa. Diante da alta na inadimplência provocada pelos juros elevados as instituições financeiras adotaram critérios de aprovação mais rigorosos e seletivos. Os bancos e financeiras continuam concedendo crédito e mantêm o apetite operacional, porém atuam com cautela redobrada na análise de capacidade financeira dos clientes. O Move Brasil destinou mais de R$ 30 bilhões para financiar caminhões e ônibus a juros subsidiados. Esses recursos foram esgotados. Qual é a sua avaliação sobre a eficácia deste programa? O Move Brasil para veículos pesados foi um caso claro de sucesso no mercado de financiamento, demonstrando que existe demanda reprimida quando o crédito é ofertado em condições competitivas. O programa atendeu muito bem à demanda de empresas na modernização de frotas. A ressalva fica para os

15 AutoData | Outubro 2026 histórico de rendimentos do motorista os bancos conseguem precificar o risco adequadamente, utilizar o fluxo futuro de recebíveis como garantia e liberar o crédito de forma rápida, inclusive para seminovos. Quais são as projeções macroeconômicas da Acrefi para este ano e o próximo? Trabalhamos com um cenário de 2027 ainda marcado por incertezas e desaceleração moderada da economia. Projetamos um crescimento do PIB de 1% a 1,4%, vindo de uma estimativa de 1,8% em 2026. Para o próximo ano projetamos câmbio ao redor de R$ 4,80 por dólar, inflação [IPCA] estimada em 4,2% e taxa Selic convergindo para a casa dos 10% ao fim do ciclo de cortes. Dentre as metas de sua gestão na Acrefi está a de tornar o crédito mais eficiente, moderno e acessível. Quais medidas específicas a entidade defende para alcançar esse objetivo no financiamento de veículos? Defendemos a atuação em duas frentes complementares. Na frente estrutural focamos no fortalecimento da segurança jurídica e das garantias reais, adoção plena e rápida do Renave em todo o País, digitalização de processos e integração de bases de dados para reduzir o custo operacional dos financiamentos. Na frente macroeconômica é fundamental a manutenção de um ajuste fiscal rigoroso para garantir a previsibilidade e a estabilidade monetária alcançadas pelo Banco Central. O crédito necessita de ambiente seguro e previsível para expandir os prazos e reduzir os custos finais ao consumidor. caminhoneiros autônomos, cuja adesão foi mais lenta devido à falta de mecanismos adequados de garantias e entrada. O caminhoneiro exige análise de crédito diferenciada. O aprendizado do programa é que precisamos criar fundos garantidores para estruturar operações acessíveis e sustentáveis para esse público específico nas próximas edições. Por outro lado a versão do Move Brasil para taxistas e motoristas de aplicativo liberou menos de R$ 5 bilhões dos R$ 30 bilhões colocados à disposição para financiar automóveis. O que travou a liberação desse crédito e como corrigir o problema? Houve entraves operacionais e barreiras burocráticas de acesso ao crédito. O principal obstáculo foi a exigência de dupla aprovação – governamental e bancária –, somada a limitações nos modelos de carros aceitos e exigência de entrada incompatível com o perfil do trabalhador. Para o futuro Move 2 é fundamental integrar os dados de faturamento diretamente com as plataformas de aplicativo. Com acesso ao “ O Move Brasil para financiar caminhões e ônibus foi um caso claro de sucesso no mercado de financiamentos, demonstrando que existe demanda reprimida quando o crédito é ofertado em condições competitivas.”

18 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » BALANÇO Projetar o desempenho da indústria automotiva brasileira em 2027 exige, neste momento complexo, uma dose adicional de cautela. Com uma eleição presidencial entre candidaturas com orientações distintas para a economia e o papel do Estado no desenvolvimento nacional, até a publicação deste texto ainda permaneciam indefinidas decisões que influenciarão juros, crédito, investimentos e política industrial no futuro de curto prazo. As perspectivas precisam, portanto, ser lidas à luz dessa incerteza. Por Márcio Stéfani Caminhos do próximo salto industrial A eleição definirá a orientação econômica do País que continuará recebendo novos fabricantes e tecnologias. Para o setor automotivo o desafio será transformar concorrência, investimentos e expansão do mercado em competitividade e desenvolvimento da produção brasileira. A chegada de fabricantes, a presença chinesa, a diversificação tecnológica e os investimentos estão reorganizando a concorrência e o mercado com muita intensidade. E o próximo governo terá, obrigatoriamente, de criar condições para converter essas mudanças em desenvolvimento produtivo. O País tem um grande mercado, base industrial constituída, engenharia e experiência com combustíveis renováveis. Mas vender mais não irá garantir que os novos investimentos se convertam em produção, tecnologia, exportações e empregos locais IA Gemini

19 AutoData | Outubro 2026 no futuro. As análises publicadas nesta edição indicam claramente oportunidades de crescimento, restrições financeiras e maior pressão competitiva. Os movimentos serão diferentes entre os segmentos: automóveis disputarão consumidores com uma oferta renovada; caminhões dependerão da capacidade de investimento dos transportadores; e ônibus vão continuar precisando combinar financiamento, renovação privada e compras públicas. A EXPANSÃO E SEUS LIMITES Em 2026 a demanda se comportou muito positivamente mesmo com o financiamento sendo caro e seletivo. Ao mesmo tempo, a nova concorrência ampliou a oferta e pressionou condições comerciais. Com tudo isso, estímulos e a necessidade de substituir veículos também movimentaram o mercado. O presidente da Acrefi, Tadeu Silva, em sua entrevista From The Top publicada na abertura desta edição, relacionou a expansão dos financiamentos à necessidade de trocar o carro usado, à utilização de veículos como instrumento de trabalho e à concorrência intensificada pela chegada de marcas chinesas com preços atraentes. O diagnóstico ajuda a explicar o avanço das vendas e do crédito, apesar das restrições macroeconômicas representadas por juros e inadimplência em alta. A avaliação dos consultores dá sustentação à hipótese de que a disputa pelo comprador passou a compensar parte das dificuldades econômicas. Murilo Briganti, diretor de operações da Bright Consulting, identificou reduções no preço do zero- -quilômetro e migração de compradores de seminovos para novos diante da oferta mais competitiva. Já Roberto Barros, da Mobility Global, atribuiu mais da metade da queda de preços à concorrência chinesa, enquanto Igor Calvet, presidente da Anfavea, informou reduções de 6% a 7% em algumas categorias, além das promoções. As avaliações não representam uma queda uniforme de preços. Descontos, campanhas e maior conteúdo tecnológico IA Gemini ampliaram a atratividade das ofertas. Mas há um custo para sustentar essa dinâmica: vender mais pode exigir margens menores, maior apoio financeiro e uma administração mais cuidadosa dos estoques. Sustentar esse impulso em 2027, no entanto, será muito mais difícil. Promoções têm limites, estímulos podem ter prazo e a base de comparação será maior. Será preciso distinguir o avanço da capacidade de compra do efeito de condições excepcionais oferecidas pelo governo e pelas empresas. O ambiente macroeconômico também recomenda cautela. Dentre os economistas ouvidos nesta edição, as projeções de PIB para 2027 vão de 1,1% a 1,8%. Haroldo Silva, presidente do Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo, trabalha com a menor taxa desse intervalo, enquanto Tereza Fernandez, consultora econômica da Fenabrave, apresenta uma faixa de 1,5% a 1,8%. As projeções de Selic também variam: Silva considera uma redução até 11%, e Fernandez trabalha com 12,5% a 13%. As diferenças não impedem uma leitura comum: a economia poderá crescer, mas os juros continuarão relevantes nas decisões de consumo e investimento. Uma taxa menor em dezembro também não equivale a financiamento barato ao longo de todo o ano. Inadimplência, risco, entrada exigida e critérios de aprovação

20 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » BALANÇO Indústria, Comércio Exterior e Serviços, ao Ministério da Economia. A decisão retirou da indústria uma pasta própria. Sua repetição ou eventual substituição por outra estrutura não está determinada para um futuro governo do filho, mas o histórico torna pertinente examinar o espaço institucional que o tema receberia. Também será necessário conhecer o compromisso com a descarbonização. O posicionamento de Flávio ao questionar a origem humana do aquecimento global, em várias entrevistas e eventos durante sua campanha, suscita uma pergunta relevante para um setor que investe em eficiência energética e tecnologias de baixa emissão: qual prioridade esses objetivos terão na condução das políticas públicas? Isso não significa prever a interrupção do Mover. O programa tem base legal e integra o planejamento de empresas com investimentos de longo prazo. Esses compromissos constituem fatores favoráveis à continuidade. A incerteza envolve a execução, regulamentação e prioridade política, dimensões que importam mesmo quando um instrumento é formalmente preservado. A continuidade precisará demonstrar como financiar sua política de desenvolvimento. Uma nova gestão terá de esclarecer como combinar ajuste fiscal, inovação e fortalecimento produtivo. Em ambos os casos, vendas e desenvolvimento industrial exigirão avaliações próprias. continuarão determinando quem terá acesso ao veículo. Tadeu Silva, da Acrefi, espera expansão mais moderada do financiamento de veículos em 2027, mas sem indicar um porcentual. Na avaliação dele, disponibilidade de crédito, custo e capacidade de pagamento continuarão decisivos para o desenvolvimento do mercado. O PAÍS DEPOIS DAS URNAS A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro exige avaliar os rumos da política fiscal, da tributação, do investimento produtivo e da transição energética. Os efeitos dependerão das medidas executadas e do apoio para implementá-las. Uma vitória de Lula permitiria trabalhar com a expectativa de continuidade da política de modernização industrial e dos instrumentos de apoio à inovação e à descarbonização dos últimos anos. Para o setor automotivo o programa Mover é uma referência concreta dessa orientação. O desafio do novo governo seria, neste caso, conciliar essa continuidade com uma condução fiscal capaz de reduzir incertezas e favorecer condições financeiras mais adequadas aos investimentos de longo prazo. Claudio Sahad, presidente do Sindipeças e da Abipeças, associa o desempenho de 2027 ao comprometimento da futura gestão com a responsabilidade fiscal. Na avaliação dele, uma postura mais austera pode favorecer uma redução mais intensa da Selic, enquanto um ajuste mais tímido tende a resultar em avanço mais contido da atividade. Com Flávio Bolsonaro a hipótese de melhora da confiança fiscal dependeria de equipe, medidas e execução. Um ajuste consistente poderia melhorar as condições financeiras, mas não garantiria uma trajetória de redução de juros mais rápida e nem expansão das vendas. Ao mesmo tempo a orientação da política industrial exigiria esclarecimentos e cuidado. Nunca é demais lembrar que o precedente do governo Jair Bolsonaro incluiu a incorporação, em 2019, das atribuições do MDIC, Ministério do Desenvolvimento, IA Gemini

21 AutoData | Outubro 2026 LEVES: CRESCER CUSTARÁ ESFORÇO No segmento de automóveis e comerciais leves as projeções dos consultores situam as vendas de 2027 entre a estabilidade e um crescimento moderado. A Mobility Global estima 2,95 milhões de emplacamentos, ante 2,94 milhões previstos para 2026, alta de aproximadamente 0,3%. Já a Bright Consulting projeta 3,04 milhões, ante 2,96 milhões este ano, com avanço de 2,8%. A produção poderá também crescer mais do que o mercado. A Mobility Global trabalha com 2,86 milhões de veículos leves fabricados em 2027, alta de 6,7% sobre sua estimativa para 2026. E a Bright prevê 2,92 milhões, crescimento de 3,5%. Estes índices partem de bases distintas: 2,68 milhões e 2,82 milhões, respectivamente. Para as exportações a Bright estima 444 mil unidades em 2027, alta de 2,5%. Murilo Briganti, da Bright, associa o crescimento contido à necessidade de o financiamento caber melhor no orçamento das famílias. Roberto Barros, da Mobility Global, destaca a inadimplência e a restrição de crédito, sobretudo para consumidores de menor renda. Em uma simulação adversa da Bright, uma combinação de piora fiscal, câmbio pressionado e juros elevados por mais tempo poderá até levar a uma queda de 5% nas vendas. Trata-se de um cenário de risco, separado da estimativa central de crescimento. As opiniões de vários dos principais executivos de fabricantes de veículos publicadas nesta edição convergem em torno da maior intensidade da concorrência, da diversidade tecnológica e da necessidade de responder rapidamente ao consumidor. E divergem quanto ao espaço para expansão e à forma de combinar recursos globais e produção brasileira. Ciro Possobom, da Volkswagen, por exemplo, apresentou uma das avaliações mais cautelosas: estagnação ou pequena queda do setor em 2027, com pressão competitiva e margens reduzidas. A melhora esperada de alguns indicadores econômicos, em sua leitura, poderá ser insuficiente para ampliar o mercado. De acordo com ele, um fabricante pode crescer conquistando participação sem expansão equivalente do setor. Assim sendo, produtos, redes e campanhas redistribuirão compradores. Nesta leitura, mais investimentos e lançamentos, portanto, não garantirão demanda adicional. Thomas Owsianski, da General Motors, destacou a velocidade de execução para enfrentar esse ambiente. Sua estratégia reúne engenharia e estrutura industrial regionais com acesso a tecnologias e produtos globais. Já Herlander Zola, da Stellantis, colocou como desafio transformar investimentos em competitividade. Veículos a combustão, híbridos e elétricos continuarão convivendo no mercado brasileiro. Tanto a GM, como Stellantis e a Toyota reforçaram que usos e condições econômicas exigem soluções distintas. O Brasil poderá desenvolver produtos para essa diversidade, combinando eletrificação e biocombustíveis. Nesse ambiente a acessibilidade será decisiva. A competitividade de uma tecnologia precisa aparecer no preço, na prestação e no custo de uso. Garantia, assistência técnica e valor de revenda também influenciarão a escolha, especialmente Divulgação/Scania

22 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » BALANÇO quando o comprador avalia marcas ou sistemas de propulsão com os quais ainda tem pouca experiência. COMERCIAIS: NECESSIDADE NÃO BASTA Para os caminhões as projeções dos consultores desenham um horizonte de estabilidade. Gregori Boschi, sócio-diretor da BIM³, estima de 104 mil a 110 mil emplacamentos em 2027. Para a produção trabalha com 112 mil a 116 mil unidades. Já a PSR, Power Systems Research, apresenta uma estimativa industrial um pouco maior, de 117 mil a 118 mil caminhões. Roberto Leoncini, profissional com grande experiência no mercado de veículos comerciais, também não espera grandes oscilações nas vendas. Sua avaliação é de um mercado próximo de 100 mil a 110 mil unidades caso o financiamento permaneça caro. E Priscila Spadine, da PSR, vê possibilidade de melhora se o custo do crédito diminuir, mas também mantém a estabilidade como referência central. A necessidade de transporte e renovação não se transforma automaticamente em encomenda. O transportador precisa de crédito e retorno para pagar combustível, manutenção, pessoal e prestações. É o famoso TCO. Denis Güven, presidente da Mercedes- -Benz, apresentou 2027 como um teste da retomada dos investimentos. Segundo ele condições econômicas melhores poderão recolocar projetos em avaliação, mas compradores seletivos e o custo do crédito continuarão condicionando as decisões. A concorrência chinesa também está alcançando os comerciais com força. Com a chegada destes novos concorrentes no mercado, eventuais preços de aquisição mais baixos poderão pressionar as marcas instaladas e acelerar a renovação de produtos. A consolidação das estreantes, entretanto, dependerá de disponibilidade de peças, rede e atendimento ao longo das rotas. Isto porque, neste segmento de veículos comerciais, tempo parado interfere diretamente na vantagem econômica da compra. Para os ônibus as projeções mostram por que produção e mercado precisam ser analisados separadamente. A BIM³ estima cerca de 20 mil emplacamentos em 2027, abaixo da faixa de 21 mil a 23 mil prevista pela própria consultoria para 2026. Para a produção Boschi trabalha com 24 mil a 28 mil unidades no próximo ano. A PSR apresenta uma perspectiva industrial de produção mais favorável: 31 mil ônibus fabricados em 2027, ante aproximadamente 27 mil estimados para 2026. A projeção se apoia principalmente nas entregas de cerca de 7 mil unidades do Programa Caminho da Escola, vinculadas a encomendas licitadas ou contratadas este ano. O calendário público pode, portanto, elevar a produção sem representar recuperação generalizada das compras privadas. Ruben Antônio Bisi, presidente da Fabus, que reúne encarroçadores, espera um mercado menor em 2027, porém sem apresentar uma estimativa fechada. Segundo ele, operadores urbanos e rodoviários precisam renovar frotas, mas enfrentam limitações de receita e de acesso ao financiamento. Também a eletrificação dependerá da combinação entre veículo, crédito, infraestrutura e equilíbrio financeiro da operação. Reprodução internet

23 AutoData | Outubro 2026 Obs.: Volumes em unidades. Vendas no Brasil incluem importados. Totais sem motocicletas. Exportações combinam 444 mil leves projetados pela Bright com a média anual dos embarques de caminhões e ônibus de 2023-2025 da Anfavea. >> Concorrência e tecnologia: a disputa por participação continuará intensa. Híbridos e elétricos avançarão em convivência com a combustão e os biocombustíveis. Preço, financiamento, infraestrutura e adequação ao uso determinarão o ritmo de cada tecnologia. >> Fornecedores e investimentos: novos projetos abrirão oportunidades, mas a contratação local avançará de forma desigual. O ganho para a cadeia dependerá da profundidade industrial dos investimentos, da incorporação de engenharia e da competitividade dos fornecedores brasileiros. >> Política industrial: o governo eleito influenciará as condições para transformar investimentos e expansão comercial em desenvolvimento produtivo. Responsabilidade fiscal, inovação e execução dos programas serão determinantes. Com base nas estimativas, entrevistas e artigos desta edição, veja os movimentos mais prováveis para o próximo ano Projeções de AutoData para o setor em 2027 2,95 milhões a 3,05 milhões +/- 20 mil 100 mil a 110 mil 3,07 milhões a 3,18 milhões – 2,85 milhões a 2,95 milhões 24 mil a 31 mil 112 mil a 118 mil 2,99 milhões a 3,10 milhões +/- 470 mil Expansão moderada das vendas, sustentada pela renovação da oferta e disputa pelo consumidor. Concorrência intensa pressionará margens. Crédito mais acessível poderá ampliar o crescimento. Compras públicas terão peso decisivo na produção. A amplitude da faixa reflete incertezas sobre o calendário de entregas. A renovação privada continuará limitada pelo crédito e pela capacidade de investimento dos operadores. Mercado próximo da estabilidade. A necessidade de renovação existe, mas a recuperação dependerá do custo do financiamento e da rentabilidade dos transportadores. Desempenho condicionado à economia e ao crédito, com trajetórias diferentes entre os segmentos. A produção poderá crescer mais que as vendas internas, dependendo das exportações, da participação dos importados e dos estoques. As exportações contribuirão para a escala industrial. O resultado dependerá da demanda dos mercados de destino e da competitividade dos veículos brasileiros. Vendas no Brasil Produção brasileira A leitura de AutoData Automóveis e comerciais leves Caminhões Ônibus Total de veículos Exportações totais de veículos

24 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » BALANÇO PRÓXIMO DEGRAU COMEÇA NA CADEIA Independentemente do resultado eleitoral a chegada de fabricantes chinesas exigirá conciliar abertura, competição e desenvolvimento produtivo. Os efeitos industriais das novas operações dependerão da execução e da profundidade de cada projeto. Esse movimento poderá iniciar um novo degrau de desenvolvimento do setor. A disputa estimulará atualização tecnológica, revisão de custos, produtividade e novos produtos. Para que esse avanço alcance toda a indústria, no entanto, será necessário convertê-lo em engenharia, compras locais, qualificação e oportunidades para fornecedores. As perguntas são inevitáveis: quais processos serão incorporados, quais componentes serão produzidos aqui e quais competências permanecerão no Brasil? O critério adotado para respondê- -las têm obrigatoriamente de valer para empresas de todas as origens. Pesquisa realizada pelo Sindipeças mostra claramente a distância entre aproximação e contratação por parte dos novos fabricantes de veículos. Na pesquisa com associadas, 40% das respondentes receberam pedidos de cotação de marcas orientais. Mas deste grupo somente 27% foram nomeadas fornecedoras, o equivalente a aproximadamente 11% do total pesquisado. Ou seja: a oportunidade existe, mas sua conversão em negócios ainda alcança uma parcela limitada das empresas consultadas. Para 2027 o Comitê de Forecast do Sindipeças projeta alta de 4,7% na produção nacional de veículos em 2027. Mas esse avanço potencial não significará crescimento uniforme das autopeças: o benefício dependerá dos modelos produzidos, do conteúdo adquirido localmente e da participação de cada fornecedor nos novos projetos. O início de 2027 também trará uma mudança no custo de determinados regimes de montagem. O cronograma prevê, a partir de janeiro, a retomada do imposto de importação 35% sobre modelos eletrificados desmontados importados em CKD. Os veículos importados montados [CBU] já chegaram à alíquota de 35% em julho de 2026. Esta alteração poderá modificar as contas de localização, mas não eliminará as diferenças de escala, tecnologia, produtividade ou estratégia comercial. A discussão não terminará na tarifa. A política industrial precisará tornar competitivos a produção e o desenvolvimento no Brasil. Proteger uma etapa isolada não assegura integração da cadeia nem conquista de mercados externos. OPORTUNIDADES Exportar será parte importante do possível avanço da indústria. Projetos restritos ao mercado interno ficam mais expostos às oscilações domésticas e à disputa por participação. A integração regional e a busca de outros destinos podem ampliar escala, desde que produtos, custos e condições comerciais permitam competir. Também haverá oportunidades fora do eixo de automóveis e caminhões. As motocicletas chegarão a 2027 com demanda aquecida e novos projetos industriais. A Abraciclo já revisou para 2026 suas estimativas de produção para 2,1 milhões de unidades e de emplacamentos para 2,35 milhões. Em máquinas agrícolas e de construção as perspectivas reforçam outra Reprodução internet

25 AutoData | Outubro 2026 distinção: atividade não equivale necessariamente à capacidade de investir. Rentabilidade, endividamento e financiamento podem limitar compras mesmo quando há produção agrícola ou obras em andamento. A consultoria PSR estima a fabricação de 50 mil equipamentos de construção em 2027, enquanto a Abimaq ainda não tem projeção numérica específica para esse mercado no ano que vem. Por fim, modernizar exigirá preparar profissionais. Evandro Maggio, da Toyota, associa automação, digitalização e inteligência artificial à transformação das funções nas fábricas. Na opinião dele, qualificação e engenharia serão necessárias para que a incorporação de equipamentos se converta em capacidade de desenvolver e produzir soluções no País. O teste de 2027 será acompanhar o quanto das oportunidades se transformará em resultado. Vendas, produção, margens, exportações, contratos de fornecedores e execução dos investimentos contarão partes diferentes dessa história. O governo eleito influenciará as condições e as empresas precisarão responder com produtos, eficiência e decisões de longo prazo. O Brasil tem mercado e base industrial para avançar. O próximo salto dependerá de transformar a nova concorrência em capacidade de criar, produzir e competir a partir do País. >> O que poderá mudar o cenário: a condução fiscal do governo eleito, a evolução da inflação e as condições externas determinarão o espaço para redução dos juros. Um ambiente de maior confiança poderá favorecer investimentos, novas incertezas poderão adiar decisões. Faixas elaboradas a partir das avaliações dos economistas ouvidos nesta edição. Representam a leitura editorial de AutoData. Projeções de AutoData para a economia em 2027 1% a 2% 11% a 13% 4,3% a 4,8% +/- R$ 5,30 A economia continuará crescendo, mas sem impulso suficiente para garantir expansão expressiva do mercado automotivo. Os juros deverão cair, mas o financiamento permanecerá caro durante boa parte do ano, restringindo consumo e renovação de frotas. A pressão dos preços continuará limitando o poder de compra e o espaço para uma redução mais rápida dos juros. Referência para o planejamento, a taxa de câmbio segue sujeita a oscilações que afetarão custos de componentes, veículos importados e competitividade das exportações. Aposta de AutoData Nossa leitura Crescimento do PIB Inflação IPCA Taxa Selic Câmbio [R$/US$]

Ao longo de 125 anos de história, a Automotiva Cestari consolidou sua trajetória com base na excelência operacional, na competência técnica e no compromisso permanente com a qualidade. Desde 1901, a empresa vem evoluindo continuamente seus processos e sua capacidade produtiva, acompanhando as transformações da indústria automotiva e construindo uma reputação de confiabilidade junto a clientes e parceiros. Essa trajetória foi sustentada pelo conhecimento acumulado ao longo de décadas de fornecimento para o mercado automotivo, atendendo as principais montadoras do mercado, como: Toyota, Renault, Horse, Hyundai, Mercedes Benz, Cummins Meritor, GM, ZF, etc.. , desenvolvendo soluções alinhadas aos mais rigorosos requisitos técnicos e produtivos, fabricando componentes usinados de Ferro Fundido, Alumínio e Aço Com tradição industrial e foco em crescimento, Automotiva Cestari celebra seu fortalecimento no mercado automotivo, amplia sua presença nacional e investe na evolução de seu portfólio 26

O know-how adquirido ao longo dessa evolução também tem impulsionado a expansão da Cestari no mercado de autopeças (aftermarket), levando ao setor a mesma expertise técnica, confiabilidade e padrão de qualidade que marcaram sua atuação na indústria automotiva. Com presença crescente em todo o Brasil, a empresa amplia seu portfólio e fortalece sua proximidade com distribuidores e clientes, transformando experiência em valor para o mercado. Ao longo de sua história, a Cestari desenvolveu uma estrutura de gestão baseada em processos integrados, controle operacional, rastreabilidade e melhoria contínua, fortalecendo sua governança corporativa e sua capacidade de responder com agilidade às demandas de um mercado cada vez mais competitivo. Ao celebrar seus 125 anos a Automotiva/Cestari reafirma seu compromisso com a inovação, com a eficiência, com a Governança e o desenvolvimento sustentável dos seus negócios, preservando os valores que construíram sua história e preparando-se para os próximos desafios e oportunidades do futuro. para diversas aplicações em motores, incluindo motores Híbridos/Flex, transmissões e suspensões. A combinação entre experiência, processos estruturados, sistemas de gestão integrados e uma cultura de melhoria contínua fortalece a governança corporativa e amplia a competitividade da empresa em um mercado cada vez mais exigente. Para a Automotiva/Cestari, o verdadeiro segredo por trás de 125 anos de liderança reside em seu capital humano, sendo que empresa cultiva uma cultura organizacional fundamentada na capacitação, no respeito mútuo, na segurança e na empatia. Há um foco genuíno no desenvolvimento contínuo e no crescimento pessoal e profissional de cada colaborador, oferecendo caminhos para que todos possam prosperar. O fator humano como motor do sucesso "Mais do que celebrar 125 anos de história, a Automotiva/Cestari celebra a capacidade de evoluir continuamente, transformando experiência, governança e competência técnica em diferenciais competitivos para o futuro." 27

28 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » MACROECONOMIA Apesar da economia ter apresentado fôlego para bancar nos últimos cinco anos crescimento surpreendente até mesmo para os especialistas, as projeções atuais indicam a desaceleração do crescimento do PIB. Dentre os fatores mencionados para a perda de ritmo estão juros ainda elevados, endividamento atrelado à inadimplência que corrói os ganhos da população e restringe o crédito além do horizonte de alta dos preços dos alimentos em raPor Rúbia Evangelinellis Ritmo desacelera Juros, endividamento das famílias e El Niño impactam o PIB, mas não a ponto de derrubar o saldo positivo acumulado nos anos anteriores zão do impacto climático causado pelo fenômeno El Niño – previsto para ser o mais forte já registrado. Pelo ânimo do mercado, refletido no Boletim Focus do Banco Central em 13 de outubro, a mediana de incremento do PIB prevista pelos agentes financeiros é de 1,85% para 2026 e de 1,4% para 2027. Ambas as projeções são inferiores à alta da atividade econômica de 2025, de 2,3%, resultado pouco acima dos 2,16% estimados pelas instituições financeiras. IA Gemini

29 AutoData | Outubro 2026 No mesmo Boletim Focus, para o fechamento de 2026, a previsão é de inflação pelo IPCA de 5,22%, Selic de 13,25% ao ano e câmbio de R$ 5,15 por dólar. Para 2027 a projeção é de alta de 4,3% no custo de vida, taxa de juros de 12% e câmbio de R$ 5,26. O Banco Central também apresenta a Pesquisa Firmus, com as estimativas de 397 empresas não financeiras, que não ficaram muito distantes do Focus. O resultado do terceiro trimestre do ano, apresentado no fim de setembro, apontava para taxa mediana da inflação de 5% em 2026 e de 4,5% em 2027. Para o PIB a expectativa de crescimento era de 1,9% e de 1,5% para os dois anos, respectivamente, enquanto o câmbio esperado era R$ 5,20 e R$ 5,15. CONTRAÇÃO MONETÁRIA Para Juliana Inhasz, economista e professora do Insper, as perspectivas de desaceleração do PIB refletem, sobretudo, o recuo da atividade econômica e a contração monetária: “Percebemos a indústria de transformação perdendo força, em um nível que já estava baixo, e também o setor de serviços sem dinamismo”. Ela pondera que o desempenho positivo observado no agronegócio este ano e na indústria extrativista, como de petróleo, foram importantes para evitar que o recuo fosse maior. O desemprego permanece em patamares baixos – ficou em 5,3% no segundo trimestre de 2026 segundo dados da “ Percebemos a indústria de transformação perdendo força, em um nível que já estava baixo, e também o setor de serviços sem dinamismo.” Juliana Inhasz, Insper Arquivo Pessoal Projeções macroeconômicas do mercado Fonte: Relatório de Mercado Focus/BC out/2026/*IBGE PIB (%) Dólar (R$) Inflação IGP-M (%) Dívida pública líquida (% PIB) Balança comercial (US$ bi) Inflação IPCA (%) Taxa média anual de desemprego (%)* Juro Selic (% aa) Conta corrente externa (US$ bi) Investimento Estrangeiro Direto (US$ bi) 1,40 5,26 4,11 73,90 79,00 4,30 6,00 12,00 -59,30 79,25 1,85 5,15 5,27 70,00 78,88 5,22 5,50 13,25 -60,00 80,00 2027 2026

30 Outubro 2026 | AutoData PERSPECTIVAS 2027 » MACROECONOMIA 1,3% ou 1,4%, IPCA de 4,5%, taxa básica de juros de 12% a 13% e dólar comercializado a R$ 5,30. HUMOR DOS EMPRESÁRIOS Para Haroldo Silva, presidente do Corecon SP, Conselho Regional de Economia do Estado de São Paulo, os indicadores refletem o “mau humor” dos empresários com relação ao cenário atual e a previsão a curto prazo: “As expectativas não são boas, principalmente em setores submetidos à concorrência chinesa, como de vestuário, têxtil e de calçados, mais ressentidos com o presidente Lula, que autorizou o fim da taxa das blusinhas [isenção da tarifa de 20% aplicada em compras de até US$ 50]”. “ As expectativas não são boas, principalmente em setores submetidos à concorrência chinesa [...]. Não tem como manter a dívida acelerada pagando juros de R$ 1,1 trilhão.” Haroldo Silva, Corecon SP PNAD, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE –, a perda de tração da economia ainda não se reflete no mercado de trabalho, mas este indicador tende a se enfraquecer daqui para frente. Até dezembro a previsão é de que os juros altos e o endividamento das famílias devem provocar impacto negativo no mercado de consumo, além de pesar na balança o déficit fiscal do setor público e os primeiros impactos esperados do El Niño sobre a lavoura e preços dos alimentos. Pela previsão de Juliana Inhasz 2026 encerra com inflação de 4,5% a 5%, Selic de 13,5%, PIB de 1,9% e câmbio de R$ 5,20 por dólar. Para o próximo ano a aposta é de recuo da taxa de crescimento para Arquivo Pessoal “ Este ano tem o governo incentivando o consumo, mas em um contexto de crédito caro, que leva a um endividamento altíssimo das famílias e comprometimento do ganho futuro.” Marisa Rossignoli, Corecon SP Arquivo Pessoal

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